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Vale Tudo e a Descredibilização da Mulher Negra

Até Quando Será Necessário Que Às Mulheres Negras Precisem Se Provar

Vale Tudo e a Descredibilização da Mulher Negra
Taís Araujo (Raquel) e Bella Campos (Mária de Fátima) - Foto Divulgação

Mesmo para quem não assiste novelas há muito tempo (como eu), não está imune ao burburinho da estreia do remake de Vale Tudo, um dos maiores sucessos da teledramaturgia brasileira, originalmente escrita por Gilberto Braga para o horário das 21 horas no ano de 1988. A novela foi uma profunda reflexão sobre o Brasil daquela época que estava vivendo o fim da ditadura e a abertura democrática, o movimento Diretas Já, mas o principal questionamento era se valia a pena ser uma pessoa honesta no país do “jeitinho”. Vale tudo falava diretamente com o pensamento das pessoas, era direta, não usava dos rodeios para chegar ao ponto e falar sobre as desigualdades do país.


Para alguns é um verdadeiro sacrilégio refazer algo que ainda é tão lembrado na memória dos brasileiros, ainda mais com a necessidade de modernizar a trama, no entanto, outra discussão vem tomando as redes sociais: Originalmente, a trama foi protagonizada por Regina Duarte e Glória Pires. Por que, Taís Araújo e Bella Campos, duas atrizes negras, como protagonistas da nova versão?


Uma onda de preconceito é vista nos comentários, os prejulgamentos, a descredibilização do talento, a necessidade de aprovação do desempenho e o racismo estrutural são notórios nas manifestações. O Brasil de 1988 continua sendo um país racista em 2025, continua misógino, machista, cínico, impune, injusto e hipócrita. O Brasil de 2025 pode ainda ser pior, culturalmente sucateado, em 1988 apesar das dificuldades, o país era robusto em sua necessidade de mostrar sua cara. Hoje somos o que? Escravos da influência digital sem conteúdo? Que Brasil é esse que vamos assistir?


Enquanto os brasileiros discriminarem e exigirem exaustivamente das mulheres, principalmente das mulheres negras, comparando-as e fazendo outras pessoas acreditarem que há equidade onde só existe preconceito, não estaremos minimamente preparados para avançar como sociedade. O protagonismo negro da nova versão de Vale Tudo chega em um momento crucial para que possamos definitivamente entender o papel da mulher preta nesta sociedade, ou seja, a mulher que mais carrega o Brasil nas costas.


Quando Gal canta a abertura da novela, Brasil de Cazuza, em um dos versos diz:

“Brasil, qual é o teu negócio, o nome do teu sócio, confia em mim”


Quem sabe o Brasil possa confiar um pouco mais nas Mulheres Pretas e no seu papel real de protagonismo!



Por Jeff Soares

Músico, Apresentador, Jornalista

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