A Arte é Um Ato Político?
Sim, mas nada nesta vida é uma “verdade absoluta”
Após o cancelamento dos show da banda Ira! no Sul do Brasil, esse questionamento vem à tona e levanta velhos embates. A Arte é um ato Político?
Precisamos começar buscando o entendimento do que é a arte. Segundo o dicionário Houaiss de Língua Portuguesa, a Arte é a “produção consciente de obras, formas ou objetos, voltada para a concretização de um ideal de beleza e harmonia ou para a expressão da subjetividade humana”. No meu entendimento, a arte é força transformadora do universo na tentativa de entender o que somos e onde estamos. É uma forma de expressão do sentimento, um retrato para a compreensão da história e a principal fonte daquilo que conhecemos como Cultura.
Já à Política, trata-se da arte ou ciência de governar. Em um conceito moderno, a política é uma normativa moral para tratar dos dilemas da sociedade civil, no entanto, define-se também como um estudo das relações em torno do poder. Mas o que nós temos a ver com a política? A política está relacionada ao que diz respeito ao bem comum, às regras, às leis e normas para uma conduta de vida no espaço, sobretudo, mediando a regularização de interesses e conflitos. No dia a dia, muito se pensa nela como um envolvimento ruim, mas é importante frisar que a política é essencial para o seguimento da nossa própria existência.

Mas, afinal, arte e política se misturam? A arte é um ato político?
Sim, mas nada nesta vida é uma “verdade absoluta”. No processo de legitimar à vida, ambas as esferas se misturam e trazem para nós um panorama de um época, mas existem fronteiras entre ambas. Atualmente, às práticas artísticas deixaram o viés político de lado, deixando uma lacuna gigantesca para as novas gerações, deixando um terreno arenoso, para práticas políticas insensíveis às problemáticas do mundo.
Tanto a arte, quanto a política, baseiam-se em ideias, construídas entre a aparência e realidade, entre o visível e o invisível, entre referências e metáforas, onde se discutem os questionamentos que deveriam abranger grande parte do anseio popular. Ambas, em muitas ocasiões, acabam por se tornarem elitistas, por só conseguirem alcançar um determinado número de pessoas, o que as torna incompreensíveis em muitos momentos. Contudo, ambas tem um mesmo objetivo, a coletividade.
A arte é um espelho do sentimento, a política um espelho da racionalidade, ou, deveria ser. Toda manifestação artística é uma provocação política, mas nem toda política tem um contexto de arte. O atual e perigoso contexto político exige que a arte se movimente e se ponha como resistência, pois a arte mais do que nunca pode exercer o seu papel de colocar as ações em prática, saindo do campo filosófico.
Em síntese, toda a arte é potencialmente política, pois abrange a sociedade, mantendo-se resistência, tomando o lugar do Estado, consciente de que ações efetivas podem muito mais do que discursos ensaiados e sem movimento. Já a política permanece na limbo de rever suas próprias proposições. A arte só deixa de ser política quando é estimulada a não preencher vazios.
Para encerrar, em 1979, na passagem de som para o show no Festival de Jazz Montreux na Suíca, Elis Regina foi informada que o show seria gravado, para um futuro lançamento, então a cantora chamou o presidente da gravadora que acompanhava a turnê e disse no microfone, na frente de todos: “volte para o hotel e redija um contrato dividindo os royalties, 50 por cento para mim, 50 por cento para os músicos”. Um recorte da arte em um ato político. Toda arte é política, mas nenhuma arte é partidária.
por Jeff Soares

Músico
Apresentador
Colunista
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