Cartas para Elas – Para Aquelas Que São Porto Enquanto Afundam
[...] Por isso, mesmo de longe, mesmo sem saber teu nome, eu te abraço daqui.
Ei, mulher… Antes de te escrever qualquer coisa, deixa eu abrir meu coração contigo. Passei 10 meses com meu filho no hospital. O Miguel. E eu tava grávida da Maria… Carregando vida dentro de mim, enquanto assistia meu outro bebê lutar pra continuar vivo. Mesmo rodeada de médicos, enfermeiras, técnicas... eu tava só. Sozinha mesmo. A gente a 300 km de distância da nossa família. Eu achava que era o hospital que me deixava assim. Achava que quando voltasse pra casa, a solidão ia embora. Mas aí o Miguel recebeu alta. E morreu. Faz três meses já.
Agora sou só eu e a Maria. Só eu… e essa solidão que não foi embora. Porque, sabe… ela não era do hospital. Ela era da maternidade. Tu entende isso, né? Tu que tá aí com o corpo exausto e o coração do tamanho do mundo. Tu que já entendeu que ser mãe é ser atravessada por uma força que vira a gente do avesso. Tu que carrega amor e cansaço no mesmo peito. Quis te escrever porque eu sei… tem uma solidão que ninguém enxerga. Que ninguém alcança. E ela não começa quando o bebê nasce. Muitas vezes começa no positivo. Ou naquele silêncio gelado quando todo mundo segue sua rotina, e a tua vira um furacão de espera, susto, renúncia.
E eu queria te dizer que eu te vejo. De verdade. Eu sei o que é chorar baixinho pra não acordar o bebê. Se esconder no banheiro só pra respirar. Sentar no chão do quarto só pra ter onde cair sem ninguém notar. Eu sei o que é amar tanto que o peito parece não caber. Dar tudo. Tudo. E ainda achar que tá devendo.
A gente se dá inteira. Inteira. Todo dia, o dia todo. E, quando vê, já nem sabe mais onde começa a nossa dor e onde termina a dos nossos filhos. Fica tudo junto. Misturado. Confuso. E ninguém em volta parece perceber. Resultado? Solidão.
Tem dias que tudo que eu queria era poder sentir saudade do Miguel em paz. Só isso. Mas nem isso eu posso. Porque tem a Maria nos meus braços, precisando de mim. E aí eu adio o luto, engulo o choro, engasgo o grito… E sigo. Porque não tem escolha. Porque o leite tem hora pra descer. A fralda não espera. O colo precisa estar pronto.
E o mais doido de tudo é que, mesmo exausta, eu agradeço. Mesmo sangrando por dentro, eu cuido. Mesmo com o coração partido, eu dou de mamar. E isso não me faz heroína. Me faz humana. Mãe. Mulher. E só quem é sabe.
Tem uma parte da maternidade que ninguém entra. Ninguém. É um lugar só nosso. Onde mora a culpa, o medo, a intuição, a memória, o peso de tudo.
E não é só físico, né? A sobrecarga. Não é só o corpo doendo, a cicatriz latejando, o cansaço que emenda um dia no outro. É mental. É emocional. É espiritual. É carregar o passado, o presente e o futuro dos filhos tudo junto, ao mesmo tempo. É pensar em tudo. O tempo todo. É não ter como desligar.
E tu sabe. Tu que também não tem espaço nem pra ficar triste. Porque se tu quebra… quem cuida? Se tu cai… quem levanta o dia?
Não importa se tu tem alguém contigo, se é mãe solo, se tem rede de apoio. Ainda assim, é dentro de ti que tudo acontece. É o teu corpo que vibra com a febre do filho. É tu que escuta o choro antes dele sair. É tu que antecipa a dor pra tentar evitar.
E aí vem o mundo e diz que a gente tá reclamando demais. Que a gente tem que dar conta. Porque afinal… ninguém mandou ter filho, né?
Mas a gente segue. Mesmo invisível. Mesmo julgada. Mesmo atravessada por dores que não têm nome, por medos que a gente não pode falar em voz alta. Porque tem coisa que só outra mãe consegue sentir. Só quem já passou noites sem dormir, mas também sem poder reclamar. Só quem já teve o corpo tocado mil vezes por dia e, mesmo assim, se sentiu sozinha por dentro. Só quem já amou com tanta força que se perdeu no meio do amor.
E eu sei que tu também segue. Mesmo quando queria parar. Mesmo quando ninguém te pergunta se tu tá bem — ou pior: quando perguntam e tu não sabe nem por onde começar a resposta. Porque se tu abre essa porta, talvez chore tudo de uma vez. E quem segura o bebê, a casa, a rotina… enquanto tu desaba?
Mas eu tô aqui. Pra te lembrar que tu não tá louca. Tu não é fraca. Tu não é ingrata. Tu é uma mulher atravessada. Pela maternidade. Pela entrega. Pela responsabilidade de ser o eixo de tudo.
E eu sei que, às vezes, tu queria só existir. Sem precisar provar força. Sem precisar estar bem o tempo todo. Sem precisar sorrir enquanto sangra.
Então, se hoje tu tá cansada… fica. Respira. Se hoje tu tá triste… sente. Sem culpa. Sem esconder. Se hoje tu sente que não vai dar conta… te lembra que tu já deu conta de tanta coisa. E que tu não precisa se cobrar ser mais do que humana.
Tu é uma mãe. Mas antes disso, tu é mulher. E antes disso ainda, tu é vida. E vidas também precisam de colo, de escuta, de descanso.
Por isso, mesmo de longe, mesmo sem saber teu nome, eu te abraço daqui. Com tudo o que eu tenho. Com tudo o que eu sou.
Com carinho, tua amiga.
Amanda Beatrice

Taróloga
Apresentadora
Colunista
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