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As Nuances Que Envolvem o Renascimento de Uma Pessoa no Candomblé

[...] Renascer, no Candomblé, é lembrar quem somos.

As Nuances Que Envolvem o Renascimento de Uma Pessoa no Candomblé
Imagem Internet

Para o Candomblé, renascer não é apenas uma metáfora: é um processo real, espiritual e profundo que marca a transformação de um indivíduo diante do sagrado. Na visão do babalorixá, esse renascimento acontece quando a pessoa decide se iniciar nos caminhos do culto aos orixás — uma escolha que envolve compromisso, entrega e sobretudo, escuta.


O renascimento começa no momento em que o iniciado, movido por um chamado ancestral, busca a casa de axé. Não se trata de uma religião que se escolhe de fora para dentro, mas de um pertencimento que pulsa no sangue, que ecoa nas memórias que o corpo carrega, mesmo sem saber. Para o babalorixá, essa busca é sinal de que os orixás estão chamando de volta aquele(a) filho(a) que se afastou ou que, nesta vida, ainda não havia se lembrado de quem é.


Ao passar pelos rituais de iniciação, o iaô (iniciado) se despe simbolicamente de sua antiga vida para vestir o branco do recomeço. O corpo é consagrado, a cabeça é entregue ao orixá, e o coração se abre para uma nova ética de vida. Esse processo é vivido em segredo, com respeito às tradições e à ancestralidade que sustentam a religião.


O babalorixá vê nesse renascimento a chance de reeducar o ser: espiritualmente, emocionalmente e socialmente. É um caminho de aprendizado, de humildade, de escuta dos mais velhos e de respeito às forças da natureza. Não é um milagre instantâneo, mas um cultivo diário de axé, disciplina e amor. Renascer no Candomblé, na visão do sacerdote, é mais do que ingressar em uma religião — é reconstruir a própria identidade à luz dos ancestrais. É encontrar-se, enfim, com aquilo que sempre esteve dentro: o orixá que habita e guia cada um de nós.




Renascer para o Candomblé: O Olhar do Babalorixá

Sempre digo que ninguém chega ao Candomblé por acaso. Cada passo até aqui é guiado por algo maior — pelos nossos ancestrais, pelos orixás, pelo axé que já habita em nós antes mesmo de sabermos. Vejo isso nos olhos de quem cruza o portão da casa pela primeira vez: um brilho tímido, uma inquietação antiga. É como se algo lá dentro estivesse despertando. É o começo de um renascimento.


Para quem vê de fora, pode parecer apenas um ritual, uma cerimônia bonita e cheia de significados simbólicos. Mas para quem vive, para quem se entrega, o que acontece é muito mais profundo. É uma ruptura com o que se era e um encontro com o que se é. O renascimento no Candomblé não é simples nem imediato — ele é construído, passo a passo, gesto a gesto, silêncio a silêncio.


A pessoa chega, muitas vezes, carregada de dores, dúvidas, medos. E aos poucos, com paciência e respeito, vai se despindo das armaduras do mundo. A iniciação é um tempo de recolhimento, de escuta e de entrega. Ali, naquele espaço sagrado, é o orixá quem guia, quem molda, quem acolhe. É a cabeça que se curva, o corpo que se consagra, a alma que se purifica.


Eu, como babalorixá, não sou dono de nada. Sou apenas o zelador do caminho. Minha missão é cuidar para que esse renascimento aconteça com verdade. Observo, escuto, oriento. Às vezes, ensino. Outras vezes, apenas abraço. Porque sei que, no fundo, quem renasce para o Candomblé está voltando para casa. E essa casa é feita de silêncio e canto, de folha e fogo, de lágrima e riso. É feita de ancestralidade viva, que respira em cada batuque do tambor e em cada reza soprada ao vento.


Renascer, no Candomblé, é lembrar quem somos. É permitir que o orixá nos habite por inteiro. É se reconectar com um saber antigo que o tempo nunca apagou — apenas adormeceu.


E quando esse axé desperta... ah, minha filha, meu filho, nada mais é como antes.



Liziane Borges

Psicopedagoga

Apresentadora

Colunista

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