cover
Tocando Agora:

Cartas Para Elas - O Céu é um Suborno, o Inferno é uma Ameaça e Eu Sou à Lei

[...] Para de carregar a cruz que não é tua. Deixa que o peso esmague quem decidiu levantar.

Cartas Para Elas - O Céu é um Suborno, o Inferno é uma Ameaça e Eu Sou à Lei
Imagem Internet/Pixabay

Ei, mulher,


Dadas nossas últimas trocas, meu intuito é ir cada vez mais direto ao ponto, sem vaselina. Sabe essa ladainha de "foi o diabo", "uma força maior me levou", "não era eu"? Conversa fiada. Desculpa esfarrapada de homem (e às vezes, mulher também, sejamos honestas) que não tem culhão pra bancar a própria merda.


Bukowski chamaria isso de covardia pura e simples, e ele estaria certo. Não tem capeta sussurrando no ouvido, não tem entidade maligna tomando o volante. O que tem é gente fazendo escolha. Ponto final.


Essa conversa mole de ser externo maligno é um truque velho, um jeito de tirar o corpo fora, de jogar a sujeira pra debaixo do tapete cósmico. E quem paga o pato? Tu. Engolindo a dor, a traição, a mentira, enquanto o infeliz lava as mãos com água benta imaginária.


Já vi isso de perto, tu também deve ter visto. O cara pisa na bola feio – trai, mente, some, agride – e depois vem com papinho de que foi "tentado", "possuído". Possuído pela própria falta de caráter, isso sim. Chega a ser patético, né?


Outro dia soube de um tal retiro "Legendários", uma fortuna pra marmanjo ir ouvir de outros caras que... pasme... não pode trair. É sério. Pagam milhares de reais pra alguém dizer o óbvio, pra terceirizar o mínimo de decência. O mundo tá perdido mesmo, ou só tá expondo a ferida purulenta da falta de responsabilidade masculina?


Simone de Beauvoir já dizia, de um jeito mais elegante, claro, que somos condenadas à liberdade. Traduzindo pro nosso português claro: tu é livre pra caralho pra fazer tuas escolhas, e com essa liberdade vem a responsabilidade, porra. Ninguém te obriga a ser escrota. Ninguém te força a ferir quem tá do teu lado. Foi escolha. Dele. Dela. E quem escolhe, arca. Simples assim.


Para de carregar a cruz que não é tua. Deixa que o peso esmague quem decidiu levantar.


E tem mais, mulher. Essa liberdade vale pra ti também. Errou? Fez cagada? Acontece. Não somos santas, nem queremos ser. A vida não é um convento, é um puteiro glorioso e caótico. Tu não é definida pelo tropeço de ontem. O erro não te marca a ferro como gado. Foi um momento, uma escolha talvez torta, uma lição aprendida (ou não, às vezes a gente repete a dose, faz parte. Mas passou. Já era. Deu.


Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima salve Beth Carvalho!


Sejamos honestas, ficar se chicoteando pelo que já foi é o mais puro suco do vitimismo. Não deixa ninguém – nem os outros, nem a voz cuzona na tua própria cabeça – te convencer que tu é pequena, que é definida pela falha alheia ou pela tua. Tu não nasceu pra ser depósito de culpa. Assume teu tamanho, tua história, tuas cicatrizes e tuas derrotas. Faz parte e lá na frente, vai ser repertório pra conversa de boteco.


É isso. O único "diabo" que existe é aquele que a gente alimenta dentro da gente: o medo de ser quem a gente realmente é, com toda a nossa luz e nossa sombra.


Com carinho (e TPM),



Amanda Beatrice

Taróloga

Apresentadora do Cartas Que Cantam


Comentários (0)