Dia dos Pretos Velhos na Umbanda
Meu amor infinito por vocês!
O Dia dos Pretos Velhos na Umbanda: Reverência à Sabedoria, Humildade e Cura Espiritual
“Preto Velho que nasceu no cativeiro,
Hoje baixa no Terreiro de cachimbo e pé no chão…
Pega na pemba, risca ponto, faz mironga
Saravá Maria Conga, Saravá meu Pai João…”
Certa noite, achei que morreria, as dores nas costas a cada respiração eram intensas e a falta de ar era constante nos últimos dias, em determinado momento sentei-me na cama e tentando chegar a cozinha para fazer um chá, sentei-me novamente em uma cadeira na sala, enquanto o telefone tocava, era uma ligação de uma conhecida da época, que me falava amenidades e me enviara uma música para ouvir no YouTube. Ouvida a canção em partes, devido as dores e a tosse, acabei por chorar e com os olhos fechados apenas ouvi… “Fio, se suncê precisa, é só pensar na Vovó que ela vem te ajudar…” e de repente, através daquela cantiga que o YouTube tocara, a princípio ao acaso, me manteve de olhos fechados, enquanto sentia a presença de uma senhora, toda vestida de branco, massageando minhas costas com três pedrinhas brancas e que sorriu antes de desaparecer. Quando abri os olhos, não sentia mais dores, minha respiração estava praticamente normalizada, a tosse havia sumido e eu emocionado, com aquela experiência que parecia inacreditável, agradeci e chorei muito.
Anos depois, indo pela primeira vez em um Terreiro de Umbanda, fui atendido por uma médium, que recebia uma entidade chamada Vó Maria. Vó Maria, pediu um copo d’agua, um galho de pitangueira para me benzer, enquanto dizia: “nego, lembras da Vó, daquela vez lá no teu barraco… que bom que tu veio encontrar a Vó, nego…”. Naquele momento desabei a chorar, pois ninguém sabia daquela noite, absolutamente ninguém. E segurando as mãos de Vó Maria, me senti seguro, em paz e um pouco mais feliz.

Na beleza e na imensidão natural da Umbanda, a linha de Preto Velho ocupa um lugar especial nos corações dos irmãos de fé, eles são a nossa principal referência de amor. Celebrados no dia 13 de maio, data em que o Brasil aboliu a escravatura, os Pretos Velhos representam a força da ancestralidade, a resistência negra diante da escravidão, a sabedoria diante do sofrimento, a prática da caridade e da humildade e a cura através da fé. A Umbanda ressignifica este dia, transformando-o em um símbolo de resistência espiritual e reparação simbólica através do culto ancestral.
O arquétipo dos Pretos Velhos está ligado diretamente às almas dos africanos escravizados que, em vida, suportaram todas as injustiças com resignação, resiliência e fé. Através de sua sabedoria ancestral, esses espíritos continuam a perpetuar seus conhecimentos auxiliando a aqueles que procuram por um conforto, por uma palavra que lhes traga algum norte e força.
Diferente de outras linhas de trabalho da Umbanda, como os Caboclos (que trazem força e vitalidade) ou a dos Exus (que trabalham na limpeza espiritual), os Pretos Velhos atuam com calma e profundidade, no campo do equilíbrio, com sua sabedoria simples, eficaz e de fé inabalável. Geralmente são procurados para tratar casos de enfermidades físicas, espirituais e emocionais, também para apaziguar conflitos e auxiliar da superação de vícios. Utilizam rezas, benzimentos, receitam banhos de ervas e aplicam o famoso passe espiritual, onde muitas vezes utilizam cachimbos, para gerar a fumaça que simboliza a purificação.
Em um país onde a história negra foi apagada por séculos pela branquitude, o culto aos Pretos Velhos assume um papel de reconexão com as raízes africanas, nos lembrando que a espiritualidade negra não foi apagada pela escravidão, mas se reinventou, sobrevivendo nas Religiões de Matriz Africana, como a Umbanda e o Candomblé.

Além disso, os Pretos Velhos são um antídoto contra o racismo religioso. Pois, enquanto a sociedade marginaliza as Religiões de Matriz Africana, esses guias mostram que a cultura negra é fonte de sabedoria, cura, amor e humildade. O Dia dos Pretos Velhos vai além do ritual religioso; é um chamado à memória, à justiça e ao amor incondicional. Em um mundo ainda marcado pelo preconceito, esses espíritos ensinam que a verdadeira força está na fé que transforma tudo, inclusive à dor em luz.
Que os Pretos Velhos nos abençoem com sua paz, e que nós nunca nos esqueçamos de onde viemos.
Esse texto/relato é dedicado a Vó Maria do Congo, ao Pai Antônio, que me acompanham nessa vida, a Vó Maria, a Vó Rita minhas conselheiras amadas e a todos os Pretos Velhos que encontrei na minha vivência de Terreiro.
“Pensa na Vovó Maria, fazendo oração,
Pensa na Vovó Maria, fazendo oração...”
Axé!
Jeff Soares

Músico
Jornalista
Apresentador do Aqui de Casa Podcast
Comentários (1)
Axé! Salve nossos preto velhos!
1 ano atrás