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O Santo Daime: Um Caminho de Luz

[...] Foi nesse chão consagrado que, sem ser fardada, mas com o coração aberto, eu pisei pela primeira vez.

O Santo Daime: Um Caminho de Luz
Imagem Internet

O Santo Daime é uma doutrina espiritual brasileira que nasceu na floresta, entre o silêncio das árvores e a sabedoria dos povos que ali vivem em comunhão com o sagrado. Fundada por Raimundo Irineu Serra — o Mestre Irineu — a doutrina une elementos do cristianismo, do espiritismo, das tradições indígenas e afro-brasileiras, e tem como sacramento o Daime: um chá feito da combinação de duas plantas da floresta, usado há séculos em rituais de cura e expansão da consciência.


Os trabalhos espirituais do Daime acontecem por meio do canto de hinos, bailados e, às vezes, meditação. São encontros de oração, disciplina, limpeza e amor. A doutrina não impõe dogmas, nem exige um pertencimento cego — cada pessoa trilha seu próprio caminho na luz, de forma verdadeira e comprometida, por livre e espontânea vontade. Os hinos, recebidos em estados de inspiração espiritual, guiam esse caminho como bússolas vivas, apontando pra dentro, onde mora o divino.


Mais do que uma religião, o Santo Daime é uma escola da alma. E cada pessoa que chega, chega no seu tempo — seja pela dor, pelo amor, pela busca ou pelo acaso. Foi nesse chão consagrado que, sem ser fardada, mas com o coração aberto, eu pisei pela primeira vez.





Depoimento – Meus passos no Santo Daime.


Conheci o Santo Daime depois de já ter consagrado a Ayahuasca. Ainda que seja o mesmo chá, a força se manifesta de formas diferentes. No Daime, percebi que não era apenas o chá que curava — era a doutrina, a ritualística, os hinos, o silêncio e o corpo se fazendo um elo da corrente.


Meu primeiro trabalho foi o bailado de sexta-feira santa. Estava atravessada por uma dor que não sabia nomear. Miguel, meu filho, estava internado no hospital. Eu havia saído só pra ir até lá. Cheguei nervosa. Não conhecia o Daime com os meus olhos, mas pelos olhos de quem me levou. Não fui convidada — porque não se convida — fui chamada pela dor.


Me preparei com jejum leve, só frutas, e oração. Sabia que não era passeio. Era necessidade. Como quem sofre um acidente e precisa do pronto-socorro.


Começamos a cantar os companheiros do Mestre. No último hino, que não fazia parte do hinário, a força me tomou com tanta intensidade que chorei até doer as maçãs do rosto. Vômito. Tristeza. Dores físicas no peito, no pescoço. Era como se o Daime me explicasse, com compaixão, por que meu filho sofria, por que eu não podia cessar a dor dele. Que ele me escolheu pra amparar, não pra salvar.


Fechei os olhos e vi algo: eu mesma, pequena, escondida debaixo de uma cadeira do salão. Não de medo, mas da sapequice que me habita desde sempre. Era como se a parte mais pura de mim ainda estivesse ali, observando a nossa versão mais impura atravessar aquela tempestade por todas “nós”.




Cada hino me segurou pelas mãos. Eu cantei com o coração. Senti o espírito do Miguel comigo. Forte. Vivo. Meu corpo era o corpo dele também. Ali, naquele salão dourado, se ele morresse, eu sabia que ele estaria em mim.


Ao final do trabalho, procurei um canto pra me sentar. Escolhi, sem saber, a fossa da igreja. O dirigente passou, me olhou e disse: 

— Tá na fossa?

— Tô?

— Aí onde tu tá é a fossa. Cuidado pra não cair.

Rimos. Trocamos mais umas palavras. Ele seguiu. Eu fiquei.

Nunca mais esqueci esse “tu tá na fossa”.


Participei de outros trabalhos: bailado e concentração. Mas foi na concentração que algo muito profundo se revelou. Pela primeira vez em meses, silêncio. Nenhum bip. Nenhuma campainha. Nenhuma máquina. Só a força do chá e o canto forte dos hinos.


Um deles me atravessou como uma lança:

“O mestre das falanges é Jesus,

e lá do alto do plano sagrado derrama sua luz

Abaixo Dele vem outras falanges

mandadas por Ele pra colaborar

Bezerra de Menezes ajuda os médicos para curar"


Esse mesmo hino eu ouvia antes de cada procedimento invasivo do Miguel.




Coincidência nenhuma. Aquilo reconfigurou meu cérebro. Me mostrou, novamente, que havia algo maior costurando tudo. Digo novamente, porque eu não despertei no Daime, essa consciência eu obtive de outras formas, mas no Daime eu curei o que me impedia de renovar os votos com essa consciência, dessa vez, com responsabilidade e compromisso.


Outros hinos quebraram meus julgamentos. Me emocionava ao ver irmãos e irmãs cantando sem ler, com o corpo inteiro, com a alma. Gente que eu não conhecia, mas que me acolheu com o olhar, louvando a Deus durante horas. Mesmo sem pertencer, eu era acolhida. Talvez julgada, mas nunca condenada. 


Sair do trabalho e voltar pro hospital era difícil. Sentia culpa por ter saído. Mas também sentia que eu estava cuidando do Miguel da única forma que podia: não deixando que ele carregasse minha dor junto com a dele.


Bom, não me fardei — ainda —. E entendo por quê. Naquele momento, eu não me via merecedora. Como poderia fazer parte do exército da Rainha da Floresta se eu mesma me sentia uma desertora da vida? Minha relação com a Santa Maria era indiscriminada, sem disciplina. E o Daime me trazia disciplina no amor. Obediência por amor.


Esse tipo de caminhada leva tempo. Não é algo que eu podia assumir da noite pro dia, porque sei que, naquele momento, eu não conseguiria sustentar um compromisso espiritual do jeito que ele merece. Firmar algo sem conseguir honrar seria mais um peso do que um passo na minha evolução.




No fim, o Santo Daime foi a pergunta pra todas as minhas respostas. Me mostrou que eu não sei nada, que sou só mais uma caminhando em direção a luz, de mãos dadas com a minha sombra. Foi o ponto de virada no ciclo da dor — não apagou o que eu sentia, mas iluminou o sentido. Trouxe silêncio onde só havia ruído. Me deu chão quando tudo tremia. Não me prometeu novas respostas, mas me ensinou a fazer as perguntas certas. E, mais do que tudo, me pôs de volta no meu centro, dessa vez, com mais firmeza. Adelante, o trabalho só começou!


Viva o Santo Daime!

Viva o Mestre Irineu!

Viva a Rainha da Floresta!

Viva o Miguel!



Amanda Beatrice


Taróloga

Apresentadora do Cartas Que Cantam

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