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Ser Forte Demais Me Adoeceu

Qual é o Custo Invisível da Resistência Emocional?

Ser Forte Demais Me Adoeceu
Imagem Internet/Unsplash

Em uma sociedade que promove a resiliência e a capacidade de suportar qualquer adversidade sem reclamar, muitas pessoas estão descobrindo que ser forte demais pode ter um alto preço no futuro. A proposta que “se deve aguentar” ou “não enfraquecer” e até mesmo “chorar é um sinal de fraqueza” tem levado milhares de pessoas a um esgotamento emocional silencioso, onde o corpo e mente entram em crise, após anos tanta auto cobrança. 


Nascido em uma família preta nos anos 80, desde muito cedo fui ensinado que demonstrar vulnerabilidade era um sinal de fraqueza. Ouvia coisas como: “um negro não pode errar”, “engole o choro, não chora”, “tu não pode ser fraco, não pode quebrar”, “se tu desistir, nada vai pra frente”.


Muitas vezes, mensagens como essas tinham um fundo bem-intencionado, mas que criavam um ambiente de insegurança e medo. Durante muito tempo fui pressionado a não errar, a não descansar, a ser auto suficiente e a mascarar tristezas, mas quando errei, errei pra valer, assumindo inclusive erros que nem eram meus, mas, eu era o menino preto, não tinha voz, não tinha direito a argumentar, não tinha nada. Então, tive que experimentar ser forte ao conhecer o inferno emocional.


Com o passar dos anos minha insegurança aumentou gradativamente, e meu corpo sempre encontrou um jeito de me avisar quando estava ultrapassando os limites. Com as crises de ansiedade, depressão, stress, dores físicas e emocionais, desregulei meu sistema nervoso e imunológico e adquiri muito peso, chegando a obesidade mórbida. 


Às pessoas podem não ter ideia das coisas que passei, o tanto de bullying, preconceito e isolamento tive que enfrentar, às pessoas não sabem das oportunidades que perdi pela insegurança e medo, pelas frases capacitistas horríveis que tive que ouvir – fui muitas vezes inferiorizado. E aqui mais uma vez precisei ser forte, bem mais forte, porque o olhar das pessoas, em grande parte do tempo é puramente maldoso. Com isso, a insônia virou rotina, o pânico surgiu, o medo de altura e a preferência por lugares pouco movimentados também. Ah não posso esquecer, adquiri musofobia, ou simplesmente, medo de ratos.




Mesmo com tantos aspectos visíveis e preocupantes, ninguém me levou a sério, somente quando hospitalizei com a pressão arterial em 25 x 19 houve alguns ruídos de que algo não estava bem e mesmo assim, fui ignorado por boa das pessoas, afinal aquilo era uma frescura, homem não podia chorar, não podia ter medo, não podia isso e aquilo. E mais uma vez precisei ser forte.


Aprender a ser forte me trouxe muitas coisas negativas, mas algumas me marcaram positivamente em alguns aspectos, como: aprendi a encarar o público no palco mesmo com medo e insegurança, aprendi a me posicionar diante de fatos e situações onde minha opinião era cabível, aprendi a importância da consciência de classe e do letramento racial, fiz da minha dor interna música e poesia.


Mas esses aspectos sanaram as inseguranças? Obviamente que não! Preciso ainda ser forte! Porque continuo sendo alvo do olhar maldoso de gente que nem sequer sabe da minha história. Ainda preciso lutar pelos espaços que também são meus, mas que me negaram sistematicamente, ainda choro pela falta de afeto e por ser preterido pelas pessoas em função do meu condicionamento físico.


A grande diferença é que hoje eu sei que tenho fé e voz, ouvida ou não, mas que retumba e incomoda, principalmente, hoje sei que não preciso usar um traje de herói e levar porrada por aí. Hoje meu choro vem, vem fácil e eu apenas me limito a não deixar que ele me desoriente. Hoje eu sou forte. E resistente. Com traumas. E busco a minha evolução.



Jeff Soares

Músico

Jornalista

Apresentador do Aqui de Casa Podcast


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