Quando Eu Fui Só Uma Célula No Corpo de Deus
[...] Foi ali que a minha mente — naturalmente cheia de conexões e metáforas...
Tem gente que precisa ir pro alto da montanha pra encontrar Deus. Eu encontrei deitada no banco de trás de um carro, no colo de um amor que já não é mais meu, ouvindo Leoni tocar no rádio. Era ano novo. A estrada corria lá fora, as árvores passando como sombras desenhadas no céu, e eu estava sob efeito de uma bala.
Foi ali que a minha mente — naturalmente cheia de conexões e metáforas — se abriu como se tivesse voltado pra casa. A música dizia
“Olhando as estrelas
Nada no espaço
Fica parado no lugar
A terra se move
E os carros na estrada
Eu dentro de um deles
Corro mais
Só pra te encontrar”
E era exatamente o que eu tava fazendo. Era como se o universo tivesse montado uma peça perfeita só pra mim, e eu tivesse sido posta na primeira fileira.
Não era só sobre a droga. Era sobre tudo estar, de repente, em perfeita harmonia. O movimento do carro, a limitação do meu campo de visão ao céu, os sons, os pensamentos, as sensações. Tudo conspirava pra que eu acessasse algo maior — como se eu fosse só uma célula dentro de um organismo cósmico.
Naquele instante, me dei conta:
A mente é o Buda.
O coração, o Cristo.
O corpo, Deus.
E o universo... o universo é esse corpãozão vivo onde a gente vive e se move como pequenas células. Me vi como parte disso. E entendi que, se eu fico com raiva, eu dou uma espinha em Deus. E que uma guerra, como a da Faixa de Gaza, por exemplo, seria um câncer se formando nesse grande corpo.
Eu me perguntei como eu podia saber disso.
Quem era eu, célula minúscula, pra acessar uma verdade tão grande?
A resposta me veio como imagem: assim como o espermatozoide vai até o óvulo, eu fui até a mente Buda. Acessei a origem. Toquei o silêncio que veio antes do som. Voltei ao om, ao Big Bang, ao nascimento de tudo.
Ali eu soube. Mas, depois... esqueci. A dúvida chegou como vento frio depois do sonho quente. E aí me perguntei se tudo aquilo foi real, ou só uma viagem. Mas talvez a dúvida não sirva pra apagar as revelações. Talvez ela exista justamente pra guardá-las. Como se fosse a senha da porta secreta. O que eu vivi naquela noite não foi uma epifania qualquer. Foi uma lembrança. Uma memória antiga da alma.
E se tu tá lendo isso agora, talvez seja tua hora de lembrar também: tu é uma célula no corpo de Deus. Cuida bem do teu movimento, porque ele reverbera no Todo.
Amanda Beatrice

Taróloga
Colunista
Apresentador do Cartas Que Cantam
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