Perspectivas #18: Solidão
Pode ser um laboratório de experimentações do eu, de descobertas e redescobertas de si, de suas próprias cores e tons.
Vivo uma solidão crônica. Isto não é uma queixa, é apenas uma constatação. Ela não tem cura, na verdade eu mal sei se é patológica para ter uma cura. Tudo o que sei é que ela existe, e há anos a fio vem existindo. Às vezes ela aumenta, outras vezes diminui. Certas coisas a aliviam, mas um resquício seu sempre permanece intacto. Quando comecei a morar sozinho ela deu as caras de uma forma mais intensa, o que tem me despertado reflexões. De novo, isto não é uma queixa - muito embora já tenha sido, em outros momentos da vida.
Houve um tempo em que me senti sozinho de uma forma que, para mim, era nociva. Fazia-me sofrer, entrar em enrascadas, olhar mais para o outro do que para mim mesmo. Me sentir sozinho é uma das coisas mais complicadas que já aconteceram comigo, e acredito que não seja só eu. Nesse momento me veio à mente aquele clássico do The Police, “Message In a Bottle”, em que o eu-lírico fala sobre sua solidão e resolve mandar uma mensagem em uma garrafa para o mundo, pedindo ajuda. Certo dia, ele acorda e não acredita no que vê: centenas de bilhões de garrafas à costa da ilha em que estava. Acabou que ele, assim como eu, não era o único.
A solidão é uma coisa humana, e dá para fazermos uma dúzia de leituras sobre ela. Particularmente, gosto da leitura que fala sobre a solidão abrir um espaço de autocuidado e autoconhecimento. Olhamos mais para nós quando ficamos sozinhos: nossos olhos se viram para os nossos pensamentos, memórias, sentimentos, sensações, desejos… Todas aquelas coisas que habitam dentro de nós, pedaços de nós, que compõem parte significativa do nosso mundo interno. Estamos sempre com as nossas bagagens, sempre conosco mesmos, como uma própria companhia.

A solidão pode ser um palco para contracenar com todas estas figuras, conversar com elas, conhecê-las. Pode ser um laboratório de experimentações do eu, de descobertas e redescobertas de si, de suas próprias cores e tons. Um espaço de acolhimento, de autocuidado. Talvez eu me torne uma melhor companhia para o outro quando me reconciliar com a minha própria companhia. Talvez eu valorize mais a vida com o outro quando passo a ordenar minha própria solidão.
Recentemente fui morar sozinho, e desde então praticamente todo tempo que fico em casa eu tenho para mim. Sou eu, comigo e com os ‘comigos’ de mim - numa referência a Fernando Pessoa. Percebi novos jeitos de amar quando aprendi a cozinhar, quando aprendi a cuidar da gata filhote que adotei. E de me amar também, a cada vez que ponho uma música e danço para mim mesmo, ou que abro a janela e contemplo o mundo lá fora em minha própria companhia. No fim, minha companhia é a única cuja presença até o fim é garantida. Por que não ser um bom amigo de si mesmo? Para isso, entre outras coisas, é preciso uma abertura e certa dose de coragem para se estar só. Mas talvez, só talvez, não seja tão ruim assim. Me aproximo de mim estando comigo: que isto seja uma passagem para uma aproximação mais genuína com o outro depois.
Vivo uma solidão crônica, ela me aproxima de mim mesmo. A partir disso, ela me ensina a me conectar melhor contigo.
Com carinho.
Igor Jeske

Psicólogo
Músico
Colunista
Comentários (0)