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Cartas para Elas - Maternidade, Sexo, Drogas e Rock n' Roll

[...] Tá tudo aí. Tudo que tu foi, tudo que tu é, tudo que tu carrega...

Cartas para Elas - Maternidade, Sexo, Drogas e Rock n' Roll
Imagem Internet/Unsplash

Ei, mulher…


Eu tenho pensado muito em como tentam amputar pedaços da gente. É quase como se, no exato momento em que a maternidade chega, tudo aquilo que tu viveu antes fosse declarado inválido. Descartável. Proibido. Como se o sexo que tu viveu, os excessos que tu experimentou, as noites que tu se perdeu, os amores que tu queimou até virar cinza... tudo isso precisasse ser varrido pra debaixo do tapete. Pra dar espaço pra esse papel que te deram — mãe.


Mas quem foi que disse que a gente vira outra pessoa quando vira mãe? Ou melhor… quem foi que decidiu que a gente deveria virar?


O discurso é bonito, né? Nasce uma mãe, nasce uma nova mulher. Mentira. Nasce uma mãe, sim, mas nasce das entranhas de quem tu sempre foi. E ela não chega pra te substituir. Ela chega pra se somar. pra caminhar junto com as tuas outras versões. E é louco pensar o quanto essa ideia da “mãe santa”, da “mãe pura”, não é só uma construção social — é um projeto. um projeto pra controlar o corpo da mulher, pra domesticar, pra podar, pra fazer a gente esquecer que antes do ventre, existe o desejo.


E o desejo, mulher... O desejo nunca morre. Ele só muda de lugar.


Na análise, a gente entende que ninguém dá conta de se desfazer do que é. Que o inconsciente não aceita ser ignorado. Que tudo aquilo que tentam sufocar — o tesão, a raiva, a fome, a liberdade — não some. Volta. Volta em sintoma, volta em dor, volta em angústia, volta em silêncio, volta no aperto que dá no peito quando a gente olha no espelho e não se reconhece.


E é cruel perceber como tentam separar a mulher da mãe. Como se ser mãe fosse sinônimo de castidade, de renúncia eterna, de sacrificar qualquer traço de individualidade. Engraçado que com o pai não tem essa cobrança, né? O pai pode continuar sendo quem ele quiser. pode errar, sumir, se perder, se encontrar. ninguém nunca questiona se ele é pai “de verdade”.


Mas com a gente… a régua é outra. Um deslize e somos tachadas de inconsequentes, irresponsáveis, indignas. E, olha... deixa eu te dizer uma coisa: não existe mãe digna aos olhos de um sistema que só aceita mulher controlada. E se a gente ousa lembrar que existe vida pra além da maternidade… que existe corpo, que existe prazer, que existe vontade, que existe noite, que existe erro, que existe história… Pronto. vira escândalo. E, às vezes, até a gente começa a acreditar que se perdeu. Que deixou de ser. Mas não, mulher. Não se perdeu, não.


Tá tudo aí. Tudo que tu foi, tudo que tu é, tudo que tu carrega. E tudo isso não te faz menos mãe. Te faz mais inteira. Te faz mais consciente. Te faz mais capaz de olhar pro teu filho, pra tua filha, com verdade. Porque é na mulher que mora a mãe. Não o contrário.


Eu sei que não é fácil. O julgamento vem, pesado. Vem da sociedade, vem da família, vem dos outros... e, muitas vezes, vem da gente pra gente mesma.

Porque crescer mulher é ser ensinada a se vigiar, a se podar, a se culpar.


Mas é isso. Não deixa te roubarem de ti. Não deixa te arrancarem dos teus próprios braços. Tu é mãe, sim, mas é mulher antes, durante e depois. E não tem poder maior que esse.


com carinho, tua amiga.



Amanda Beatrice

Taróloga

Colunista

Apresentadora do Cartas Que Cantam

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