Flashman – Quando a Ficção Retrata Um Drama Real
Você conhece essa série?
“Um dia, cinco crianças foram raptadas da Terra e levadas aos confins do universo...”
Quem foi criança nos anos 80 e início dos anos 90, com toda certeza viveu o auge da Televisão do Brasil, não só com sua programação local, mas também com séries importadas que aqui fizeram muito sucesso. Eu, que fui uma dessas crianças, jamais esqueci da história dos Flashman, um grupo de heróis que foi arrancado de seus pais e que um dia retornam a sua terra natal para tentar conhecer a sua história.
Em meio ao boom das séries tokusatsu no Brasil, poucas deixaram uma marca tão intensa quanto Flashman. Transmitida originalmente no Japão a partir de 1º de março de 1986, a série desembarcou no Brasil três anos depois, em 13 de março de 1989, como parte da inesquecível programação da extinta TV Manchete. Atraindo tanto crianças quanto adultos, Flashman conquistou o público com uma narrativa surpreendentemente adulta, melancólica e profunda, pouco comum entre os heróis coloridos que integravam o universo Super Sentai.

Flashman é a 10ª série da franquia Super Sentai, e sua trama acompanha cinco jovens que foram sequestrados da Terra ainda crianças e criados no distante planeta Flash. Após 20 anos, descobrem que a Terra está sendo ameaçada com o surgimento do Cruzador Imperial Mess, assim eles retornam ao planeta natal com o objetivo de defendê-lo e descobrir quem são seus pais e conhecer suas origens. Com um total de 50 episódios e dois filmes curtos que equivalem a episódios especiais, a série se destaca pelo tom dramático, com dilemas emocionais que vão além da fórmula clássica “vilão da semana”.
Um Super Sentai com Peso histórico
O que muitos não sabem é que Flashman carrega um forte pano de fundo social. O roteirista Hirohisa Soda e o produtor Takeyuki Suzuki se inspiraram em um episódio delicado da história japonesa: o retorno dos órfãos japoneses que haviam sido abandonados na China após a Segunda Guerra Mundial.
Essas crianças, deixadas por suas famílias durante o caos do pós-guerra, foram adotadas por chineses e cresceram em uma cultura completamente diferente. Anos depois, o governo japonês iniciou o processo de repatriação, o que gerou enorme sofrimento. Os jovens repatriados enfrentaram barreiras culturais, discriminação, dificuldades econômicas e rejeição social. Essa dor e identidade dividida serviram como base emocional para a história de Flashman: heróis que não pertencem totalmente a lugar algum, rejeitados por seu próprio planeta, mas que ainda assim lutam por ele.

Aposta no Drama
Mesmo com essa proposta mais densa, Flashman equilibra momentos de humor e leveza — uma exigência natural para uma série voltada ao público infantil e focada na venda de brinquedos. No entanto, diversas mudanças ocorreram desde o roteiro original de Suzuki até a versão final que foi ao ar. O próprio elenco revelou que, no início das gravações, nem sabiam que estavam participando de uma série Super Sentai.
Aos poucos, a série foi intensificando o drama, especialmente após a destruição do robô Flash King. Na reta final, foi introduzido o efeito Flash Negativo, que impedia os heróis de permanecerem na Terra por muito tempo sem sofrerem efeitos colaterais fatais. Essa escolha ousada — que quase foi cortada por ser considerada pesada demais para crianças — acabou sendo mantida com firmeza por Takeyuki Suzuki, que via os heróis como representação direta dos órfãos rejeitados.
Apesar dos receios da produção, o público respondeu com entusiasmo. A segunda metade da série, com toda sua carga emocional e revelações, dominou a audiência aos sábados às 18h no Japão. Flashman não apenas superou Changeman em audiência, como também consolidou uma das melhores fases da Toei, tornando-se uma das séries mais populares da franquia Super Sentai.
Legado
Flashman foi muito mais do que uma série de ação com efeitos especiais. Ela ousou ao explorar temas profundos como identidade, rejeição e pertencimento, tudo isso sem perder o ritmo característico dos Super Sentai. Seu sucesso, tanto no Japão quanto no Brasil, prova que é possível equilibrar entretenimento com conteúdo emocional e social relevante — mesmo em uma série feita, a princípio, para vender brinquedos.

Reunião do Elenco em 2023
Jeff Soares

Músico
Jornalista
Apresentador do Aqui de Casa Podcast
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