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Tocando Agora:

É Tudo Sobre Ti (mas tu jura que é sobre o outro)

[...] A psicanálise afirma: ninguém vê o outro.

É Tudo Sobre Ti (mas tu jura que é sobre o outro)
Imagem Internet/Unsplash

É tudo sobre ti (mas tu jura que é sobre o outro)


Já parou pra pensar que quase nunca enxergamos as pessoas como elas são? A gente enxerga como a gente consegue. E o que a gente consegue ver, muitas vezes, tem mais a ver com o nosso repertório emocional do que com a realidade do outro.


Freud chamou isso de projeção, um mecanismo de defesa do ego. Em outras palavras: quando algo dentro da gente incomoda, confunde, ameaça ou assusta, a gente joga pra fora. Coloca no outro. Atribui a ele. Como se dizendo “isso aqui é dele” a gente pudesse respirar mais leve. Só que o que é nosso, não deixa de ser nosso só porque a gente empurrou pro lado.


Lacan refinou isso e nos lembrou que o outro é nosso espelho. Ou melhor, o outro é onde a gente busca o que falta em nós. O desejo do outro nos constitui, e isso molda nosso olhar. A gente vê o que quer ver (ou o que precisa ver), e não necessariamente o que está ali.


Tu já deve ter vivido isso:


Conhece alguém gentil e amorosa e, de cara, acha que é falsa, porque, talvez, tua história te ensinou que gentileza tem segundas intenções.


Alguém diz que ama ficar sozinho e tu pensa “nossa, deve ser muito triste”, porque, pra ti, solidão foi castigo.


Te contam que largaram o emprego dos sonhos pra viver vendendo arte na rua e tu sente pena, porque tu jamais teria coragem, e isso te confronta.



Ou ainda: alguém diz que morou a vida toda numa cidadezinha do interior, e tu pinta o cenário conforme tua ideia de interior: rua de barro, cheiro de café, vizinhos fofoqueiros. Mas e se o interior dele for completamente diferente? E se for silêncio, trauma, falta de pertencimento? A imagem que tu criou é só tua, e não dele. É projeção.


É doido perceber que o que te irrita demais no outro... muitas vezes é sombra tua. Aquilo que tu não permite existir em ti, mas existe, escondido nos porões do inconsciente. E quando o outro aparece escancarando isso, tu ataca, julga, afasta, ou te apaixona, sem entender por quê.


Te atrai porque é tua falta. Te repele porque é tua dor.


Então, quando tu acha que tá amando alguém, pode estar amando uma versão que tu inventou pra caber no teu enredo interno. E quando tu sente raiva de alguém, pode estar sentindo raiva de uma parte de ti mesmo que tu projetou lá.


A psicanálise afirma: ninguém vê o outro. Todo olhar é atravessado por um filtro interno. É como se tu assistisse a vida pelas lentes embaçadas das tuas vivências, das tuas dores, das tuas fantasias infantis mal resolvidas. O que tu chama de “intuição” às vezes é só trauma tentando se proteger.


A projeção, no fundo, é uma tentativa desesperada de continuar habitando o próprio mundo, sem abrir espaço pro mundo do outro. É uma recusa, ainda que inconsciente, de sair do próprio centro.


Mas e se tu parasse pra ouvir de verdade?


Sem pensar “isso me lembra tal coisa”, sem comparar com tua história, sem buscar semelhança. Só ouvir. Só ver. Tu toparia?


É arriscado. Porque ver o outro como ele é, exige que tu desmonte tudo o que tu pensava sobre ti mesmo. É preciso coragem pra suportar que o outro seja outro, e não um reflexo confortável do teu espelho interno.


Mas talvez, só talvez, seja aí que começa o amor real. A escuta real. A vida real.


Quando o outro deixa de ser uma tela de projeção e vira alguém que respira, sente e vive... fora do teu controle.





Amanda Beatrice

Taróloga

Colunista

Apresentadora do Cartas Que Cantam

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