Negritude Fora da Curva: Por que ser Preta e Alternativa incomoda tanto?
[...] ser mulher, preta, ou mulher preta fora da curva não é desvio. É caminho.
Existe um desconforto coletivo quando uma mulher, preta, decide não se encaixar. Maior ainda é a surpresa quando essa mulher ousa destoar do que esperam dela. Quando ela raspa a cabeça, pinta de verde, canta sobre demônios, drogas e prazer; ou veste um visual gótico, hippie, psicodélico, emo... sei lá, alternativo no geral, o mundo se CHOCA!
Não é só o diferente que incomoda, é o fato de ser PRETA e "fora da caixa".
O estilo alternativo sempre foi marginal, mas quando é vivido por corpos negros, vira quase(se não exatamente) um escândalo. A liberdade criativa que se aplaude em artistas brancas vira “falta de noção” ou “confusão mental” quando parte de uma mulher preta. Veja o caso de Doja Cat, Karol Conká ou Slipmami: todas exploram estéticas incomuns, provocativas, e por isso são mais julgadas do que celebradas apesar de serem artistas icônicas.
Há uma cobrança para que pessoas negras se mantenham em papéis compreensíveis: a resistência, a dor, a luta, a musicalidade tradicional, cantando samba, pagode, axé, funk…Tudo isso é real e valioso, mas não pode ser uma prisão. Quando uma mulher preta escolhe ser estranha, caótica, futurista ou apenas “diferente”, ela quebra um espelho social, e o estilhaço desse espelho entra na carne, e incomoda.
O que está em jogo aqui é a liberdade de imaginar e existir fora do estereótipo da guerreira, super heroína…É uma luta estética, mas também política. Ser preta e alternativa é reivindicar o direito de ser complexa, contraditória, e até mesmo incompreendida.

E isso é revolucionário, escolher a si própria além dos estereótipos externos. Frustrar o mundo por não ser o que eles esperavam, é um imenso prazer. Esperam que sejamos fortes, resilientes, silenciosas. Que aceitemos o pouco, que carreguemos os traumas da história sem fazer barulho. Em um país estruturado pela escravidão, como o Brasil, o imaginário coletivo ainda associa a mulher negra a papéis de subalternidade: a empregada, a mãe de santo que consola, a militante que protesta, a artista que canta “com alma”. Mas raramente a intelectual, a excêntrica, a que ousa não agradar.
E as que se atrevem a fugir do papel de mocinha, são jogadas na fogueira e rotuladas como más, negras metidas, antipáticas e abusadas. A construção da mulher negra como símbolo de resistência tem raízes na história do país, mas quando essa imagem se torna uma exigência, ela aprisiona. A sociedade brasileira se acostumou a ver mulheres negras na linha de frente da luta, mas não se preparou para vê-las como criadoras de estética, ciência, contracultura ou inovação.
Segundo dados do IBGE, mulheres negras são o grupo mais afetado pelo desemprego e pela informalidade no mercado de trabalho. E mesmo com maior presença nas universidades nos últimos anos, elas seguem sendo minoria nos espaços de poder, na mídia e na arte que rompe padrões.
Há um racismo estético, mas também um racismo da imaginação: um limite colocado sobre o que podemos ser, parecer, criar. Quando uma mulher preta decide romper com o que é esperado dela(inclusive dentro do próprio movimento negro), ela desafia não só o racismo, mas também a narrativa única que foi atribuída à sua existência. Por isso, ocupar um espaço alternativo sendo mulher negra é um ato político. É dizer que não vamos mais caber no lugar que nos foi designado. É reivindicar o direito de sermos plurais, ambíguas, contraditórias. E também, PRINCIPALMENTE, livres.
Essa coluna nasce da vontade de pensar a negritude por outros prismas: afrofuturistas, esquisitos, poéticos, marginais. Vamos falar sobre moda, música, arte, comportamento. Sempre com o olhar atento ao que se espera de nós e ao que escolhemos ser.
Aqui, ser mulher, preta, ou mulher preta fora da curva não é desvio. É caminho.
Tamara Nunes

Jornalismo/UCPel
Poeta, Artesã, Confeiteira
Taróloga e Colunista
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