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Quiet Quitting: Sintoma de Resistência ou de Desconexão Profunda com o Trabalho?

[...] Não se trata de preguiça ou falta de ambição...

Quiet Quitting: Sintoma de Resistência ou de Desconexão Profunda com o Trabalho?
Imagem Internet

Nos últimos anos, o termo quiet quitting – algo como “demissão silenciosa” – tem ganhado espaço nas discussões sobre o mundo do trabalho. A expressão não se refere à saída formal do emprego, mas a uma mudança de postura: o profissional passa a cumprir apenas o que está descrito no contrato, sem se envolver emocionalmente ou se dispor a tarefas extras que extrapolam sua função. Para muitos, essa atitude representa uma forma legítima de autopreservação diante de um mercado cada vez mais exigente, que romantiza a sobrecarga e recompensa o excesso com migalhas.


A prática tem sido interpretada por alguns como um gesto de resistência. Ao recusar jornadas abusivas, metas inalcançáveis e pressões silenciosas, o trabalhador reivindica um direito básico: o de equilibrar vida pessoal e profissional. Em tempos de burnout, crises de ansiedade e adoecimento mental generalizado, fazer o “mínimo esperado” pode ser, paradoxalmente, um ato de coragem.


No entanto, é preciso ir além da superfície. Quando o quiet quitting deixa de ser uma escolha consciente por limites saudáveis e se transforma em apatia prolongada, ele pode sinalizar algo mais profundo: a desconexão com o propósito, a insatisfação crônica ou até mesmo o esgotamento emocional. É aí que a prática deixa de ser proteção e passa a ser um sintoma de que algo está seriamente fora do lugar.


Nessas situações, a pergunta que surge é: por que continuar num espaço que já não desperta envolvimento nem sentido? Permanecer, por necessidade ou medo, é compreensível. Mas é preciso estar atento aos sinais de estagnação. Um trabalho que já não motiva, não desafia e, pior, adoece, pode estar nos pedindo uma mudança. Essa mudança não precisa ser brusca, mas exige reflexão: o que me trouxe até aqui ainda faz sentido? O que quero construir a partir de agora?


É importante lembrar que nem sempre o problema é o profissional. Ambientes tóxicos, lideranças autoritárias e culturas corporativas desumanizadas são causas reais de adoecimento. A responsabilidade pelo desânimo de um time nem sempre está nas pessoas, mas nas estruturas que priorizam o lucro em detrimento do bem-estar. Mesmo assim, insistir em ficar onde não se quer mais estar tem um custo: o da saúde mental, da criatividade e da alegria.


Em suma, o quiet quitting pode ser tanto uma estratégia de sobrevivência quanto um aviso interno de que é hora de buscar novos caminhos. Mais do que julgar essa prática como certa ou errada, o mais honesto é encará-la como um ponto de partida para uma pergunta essencial: que tipo de vida – e trabalho – quero construir?




Por que o Quiet Quitting cresceu?

O crescimento do quiet quitting está diretamente relacionado a transformações recentes no mundo do trabalho, especialmente acentuadas pela pandemia da COVID-19. O isolamento forçado, o home office e a intensificação do trabalho digital fizeram com que muitas pessoas repensassem suas prioridades. Com o aumento do desgaste emocional e a sobreposição entre vida pessoal e profissional, tornou-se evidente que o trabalho, por si só, não pode ocupar todos os espaços da vida.


Além disso, as novas gerações de trabalhadores – especialmente a geração Z e os millennials – passaram a rejeitar os modelos corporativos tradicionais, questionando o culto à produtividade, à meritocracia e à lógica do “trabalhar até morrer”. O quiet quitting surge, nesse contexto, como um grito silencioso contra a exploração disfarçada de compromisso.


Qual a relação entre Quiet Quitting e Burnout?

A prática do quiet quitting muitas vezes aparece como uma resposta direta ao burnout, síndrome reconhecida pela OMS como resultado de estresse crônico no trabalho. Sintomas como esgotamento emocional, distanciamento mental das tarefas e queda de produtividade estão presentes tanto em quem vive o burnout quanto em quem adere ao quiet quitting. No entanto, enquanto o burnout paralisa, o quiet quitting funciona como uma tentativa de autopreservação. Muitos profissionais optam por “desligar-se emocionalmente” como forma de evitar um colapso maior. Ou seja, o quiet quitting pode ser um mecanismo de defesa diante de ambientes tóxicos, líderes autoritários, cobranças desmedidas e culturas empresariais que ignoram o bem-estar dos seus trabalhadores. Ao fazer apenas o necessário, essas pessoas tentam manter sua sanidade mental em meio ao caos da superexigência.


Quem São as Pessoas que Praticam o Quiet Quitting?

Apesar de ser mais visível entre jovens profissionais, o quiet quitting não tem idade. Ele é praticado por pessoas que, em algum momento, perceberam que o esforço extra não traz reconhecimento, recompensa ou sentido. Muitas vezes, são trabalhadores que já se doaram demais – emocionalmente e fisicamente – e, ao não verem retorno, optam por se recolher.


São pessoas que carregam histórias de frustração, desvalorização ou exaustão. Muitas já passaram por ciclos de entusiasmo seguidos por decepção, e outras simplesmente não se veem representadas na cultura organizacional da empresa onde estão. Também há quem pratique o quiet quitting por não ter condições de pedir demissão: seja por questões financeiras, falta de oportunidade ou medo do desemprego.


O Que o Quiet Quitting Revela Sobre o Mundo do Trabalho?

Mais do que um problema individual, o quiet quitting revela uma crise estrutural nas relações de trabalho. Quando profissionais preferem se desligar emocionalmente a tentar transformar o ambiente em que estão, é sinal de que algo está errado. Essa prática é tanto um sintoma de desgaste quanto uma denúncia silenciosa das falhas nas organizações que insistem em ignorar o bem-estar de quem sustenta seus lucros.


Não se trata de preguiça ou falta de ambição, como muitos tentam rotular, mas de uma busca legítima por equilíbrio, saúde mental e sentido. A pergunta que fica é: queremos continuar trabalhando em um sistema que cobra demais, entrega de menos e adoece quem produz? Ou está na hora de repensar o modelo de trabalho, valorizar o cuidado e reconstruir o pacto entre vida e profissão?




Liziane Borges

Psicopedagoga

Colunista 

Apresentadora do Cabaré, Baile da Preta

e Agô Podcast

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