Na Puxada da Rede, Veio Também à Memória
[...] E com ela, a vontade de não deixar passar despercebido o direito, o alívio e o privilégio de se expressar.
Sábado deste mês mesmo, em junho, eu estava à noite em casa quando me veio o trecho de uma música na cabeça, não sei porquê mas lembrei dela.
O trecho era: “Foi na puxada de rede que eu trouxe meu amor, foi na puxada de rede que o mar me presenteou.”
Como sou dessas que esquecem tudo, corri para o digníssimo Google pra descobrir que música era essa. E lá estava a resposta: “Na Puxada de Rede”, da banda Manimal (nunca tinha ouvido falar deles). Logo abaixo, nas pesquisas relacionadas, apareceu: “Como morreu Alexandre Lima, da banda Manimal.”
Nem abri. Fechei a aba na hora, com o peito meio apertado por alguém que, até quatro minutos atrás, eu nem conhecia, mas a arte transmitida por ela sim. Fui então ao YouTube escutar a música que tinha me levado até ali. Cara, ouvir aquilo foi quase um teletransporte. De repente, eu tava em 2014. Lembro que havia uma novela da Globo naquela época que tinha essa música na trilha sonora. Foi um vislumbre nostálgico: ser pré-adolescente, não ter contas pra pagar, ir pra escola e lavar a louça pra minha mãe (risos).
Voltei ao Google, meio mexida. Aquela música tinha me levado pra uma época boa da vida. E ela é realmente linda — com uma pegada meio nortista, elementos de forró, MPB, rock e um quê de praia que não sei nem explicar. Fiquei com vontade de saber o que havia acontecido com o vocalista da banda. Descobri que Alexandre Lima faleceu em 2024, depois de passar 11 anos em coma, por causa de um aneurisma. (pesei o clima, né?)
Mas, como boa nostálgica que sou, fiquei pensando:
Quantas pessoas morreram por aí sem ter a oportunidade de mostrar sua arte ao mundo? Quantas coisas lindas foram criadas por mentes anônimas, que nunca tiveram chance de registrar ou compartilhar isso?
Essa impossibilidade de deixar um legado artístico tem muitos contextos. E é aí que entra a conversa sobre acesso, oportunidades e recursos. O que me faz pensar que poder ser artista hoje, embora difícil, é um privilégio.
Eu, Tamara, tenho 22 anos. Sou a segunda pessoa da família da minha mãe a entrar em uma universidade. Desde que me entendo por gente, amo me expressar através da escrita e do canto.
Mas eu só faço isso porque tive acesso à escola, a uma boa educação pública, porque tive pais que me incentivaram a estudar. E quem não teve isso? E nossos pais? E avós? E bisavós? E tataravós? Será que eles também queriam cantar, pintar, escrever, mas foram silenciados? Pela falta de acesso à educação, pela mentalidade da época, pelo racismo, pelo sistema? Fica aqui o questionamento: Poder se expressar, pra ti, hoje, também é um privilégio?
Eu, mulher negra, poder escrever essas palavras e compartilhá-las… Talvez seja uma daquelas pequenas vitórias que a gente não percebe no corre da vida. Mas comparando com nossos ancestrais, são passos — lentos, mas passos.
Tudo isso me fez lembrar de uma frase que li: “Personalize tudo ou morra sem deixar sua marca no mundo.”
E não é que é verdade mulher? Aproveita o tempo que tu tens pra deixar pros teus uma marca tua, tua forma de ver o mundo. Quando nossos corpos se forem, isso pode ser o que fica. Então te expressa. Escreve, canta, compõe, atua, fotografa, pinta, desenha, modela, esculpe. Faz isso porque tu podes. Faz isso porque tens acesso. Faz porque expressar salva a alma. A arte é atemporal, universal e não tem preconceitos.
Deixa tua marca no mundo, para que, quando alguém estranho encontrar tua criação, pense: “Eu também vejo o mundo assim.” E se sinta menos estranho. Do mesmo jeito que tu te reconheces em músicas, textos e imagens de décadas atrás, alguém — um dia — pode se reconhecer em ti. Faz pelos outros, porque tu podes. Mas principalmente: faz por ti.
Na puxada de rede, veio à memória. E com ela, a vontade de não deixar passar despercebido o direito, o alívio e o privilégio de se expressar.
Tamara Nunes

Jornalismo/UCPel
Poeta, Artesã, Confeiteira
Taróloga e Colunista
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