Conveniente para uns, violento para outros: A Trama do Preconceito Contra o Nordeste
[...] insistir em narrativas que valorizem a diversidade e a potência nordestina
O preconceito contra o povo nordestino não é fruto apenas da ignorância: ele é uma construção histórica e estratégica que serve para manter privilégios e sustentar um projeto de país profundamente desigual. A marginalização da identidade nordestina é mantida porque é funcional. Funciona para preservar o status quo e proteger uma narrativa de superioridade que ainda se expressa com força nas regiões Sul, Sudeste e parte do Centro-Oeste.
Como aponta o jornalista e doutor Octávio Santiago, “A imagem preconceituosa do nordestino é conveniente para as regiões Sul, Sudeste e parte do Centro-Oeste, que detêm a narrativa de que essa porção do Brasil é o Brasil da prosperidade — e o resto é o Brasil que não dá certo.” Essa análise é precisa ao revelar que o preconceito não é apenas um reflexo de desinformação, mas uma estratégia de apagamento. A manutenção de uma imagem depreciativa do Nordeste colabora para o fortalecimento da ideia de que só algumas regiões "fazem o Brasil acontecer", enquanto outras seriam atrasadas, dependentes e problemáticas.
Essa retórica é nociva porque sustenta desigualdades regionais, naturaliza a concentração de investimentos e poder político em certos territórios, e perpetua o racismo regional como algo culturalmente aceitável. Mais grave ainda, ela ignora as múltiplas formas de inteligência, resistência e inovação que brotam cotidianamente do chão nordestino, seja na arte, na literatura, na agricultura, na tecnologia ou nas políticas públicas de referência nacional que nasceram em estados como o Ceará, a Bahia e o Maranhão.

Foto: Greg/Arte Folha de Pernambuco
Conveniente é manter o nordestino como figura subalterna, como mão de obra barata, como “retirante” ou “coitado”, porque assim ele não ameaça as estruturas. Mas nordestinos protagonistas incomodam. Incomodam porque carregam força ancestral, criatividade popular, saberes próprios e um profundo senso de comunidade. Incomodam porque, ao ocupar lugares de poder e fala, rompem com os limites que tentaram impor às suas trajetórias.
É por isso que ainda se tenta descredibilizar o sotaque, desvalorizar o conhecimento e rir dos costumes: tudo isso faz parte de uma engenharia simbólica de exclusão. Mas cada vez que um nordestino assume o microfone, a câmera, a tribuna, a sala de aula ou a gestão de um projeto transformador, ele desafia a lógica do preconceito e revela a potência de um Brasil plural, múltiplo e profundamente desigual — não por natureza, mas por projeto.
Superar esse preconceito exige mais que discurso. Exige enfrentar o mito do "Brasil que dá certo" apenas em algumas regiões, valorizar o Brasil profundo em sua inteireza e redistribuir os espaços de poder e visibilidade. Enquanto for conveniente desumanizar o nordestino, o preconceito será ferramenta política. Por isso, a presença nordestina em espaços de protagonismo é, além de necessária, profundamente subversiva.
E como bem sabemos: o que incomoda, transforma. E o Nordeste veio pra ficar — com voz, com luta e com poder.
Análise crítica da entrevista de Octávio Santiago à BBC News Brasil sobre o livro “Só Sei Que Foi Assim: A Trama do Preconceito Contra o Povo do Nordeste”:
Panorama Geral da Entrevista
Na conversa com a BBC, Santiago reforça ideias centrais do seu livro — como a conveniência do preconceito, a persistência de estereótipos e a atuação de elites políticas, culturais e midiáticas em reforçar narrativas de inferioridade sobre o Nordeste .
1. Representações culturais: entretenimento x crítica social
Ele observa que, atualmente, a maioria das produções que têm o Nordeste como tema segue uma abordagem recreativa, voltada ao entretenimento, sem promover reflexão crítica. Exemplifica com a novela No Rancho Fundo, que provoca repúdio de muitos nordestinos justamente por reproduzir visões estereotipadas de atraso . A crítica é direta: essas representações uniformizam o Nordeste em imagens de seca, mandacaru, vaqueiros ou folclore forçado, transformando uma realidade diversa em produto de fácil consumo .
2. Raízes históricas e estruturas de poder
Santiago traça a origem desse preconceito desde os anos 1920: tanto a imprensa quanto a eugenia intelectual daquela época ajudaram a consolidar discursos que retratavam os nordestinos como “raça em formação”, violentos, fanáticos e indolentes. Ele utiliza o conceito de “complexo de Macabéa” (referência à Clarice Lispector) para mostrar como histórias de total subalternidade se cristalizaram no imaginário nacional.
3. Político, midiático e o “incômodo” do Nordeste protagonista
Santiago ressalta que, em momentos de polarização política como as eleições de 2022, esse preconceito se legitima e se espalha — o STJ chegou a reconhecer manifestações contra nordestinos como equivalentes ao racismo. A presença eleitoral e o protagonismo nordestino incomodam quem “não aceita o nordestino como ator decisivo nas escolhas do país”.
4. Narrativas e soberania simbólica: quem “faz” o Brasil?
Ele critica a perpetuação do discurso de um “Brasil da prosperidade” (Sul/Sudeste) e um “resto do Brasil” problemático, um contraste construído para justificar privilégios regionais. Cita exemplos no audiovisual, como Central do Brasil, Aquarius e Bacurau, que ilustram a diversidade cultural nordestina, mas são frequentemente rotulados como “filmes sobre seca” ou “Nordeste rural”, o que reduz suas narrativas.
5. Caminhos para a superação
A resposta de Santiago para o combate ao preconceito está na informação e no resgate da história: conhecer de onde surgiram os estereótipos e como eles se mantêm, para melhor enfrentá-los. Ele propõe o fortalecimento da educação, a visibilidade ativa na mídia, o estímulo à produção de narrativas plurais e a reivindicação de representatividade — tanto no espaço político quanto no cultural, dentro e fora do Nordeste.
Minha Análise Crítica
Consistência histórica: a entrevista reforça que o preconceito não é palavra solta, mas parte de um projeto de apagamento e hierarquização regional, com raízes estruturadas e continuidade ao longo de mais de cem anos. Representação vs. entretenimento: Santiago faz um contraponto importante entre obras que denunciam o preconceito e aquelas que o reproduzem, apontando que o mercado cultural favorece narrativas simplistas, com fins comerciais.
Preconceito como poder político: dá ênfase ao papel das instituições (STJ, eleições, imprensa) em legitimar e manter esse preconceito sob cobertura de legalidade e normalidade. Estratagemas simbólicos: a denúncia da “conveniência” do racismo regional é precisa — a desigualdade só existe se há um contrato de exclusão sustentado por discursos estigmatizantes.
Em Síntese:
A entrevista de Santiago fortalece e aprofunda as ideias centrais do livro. Ele não apenas descreve o preconceito, mas expõe suas articulações institucionais e culturais, reafirmando que, apesar da evolução do país em pautas como racismo e gênero, a atualização sobre o Nordeste ainda está longe do ideal. O combate exige desvelar a trama histórica e insistir em narrativas que valorizem a diversidade e a potência nordestina — não apenas como cenário, mas como sujeito político e criador de ideias.
Liziane Borges

Psicopedagoga
Colunista
Apresentadora do Cabaré, Fala Preta
e Agô Podcast
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