Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock’n’Roll
Uma animação brasileira que grita alto em psicodelia e resistência!
Em meio a um cenário audiovisual frequentemente dominado por produções estrangeiras, Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock’n’Roll (2006) se destaca como um manifesto artístico que mistura irreverência, contracultura e brasilidade. Dirigido por Otto Guerra, o longa é uma adaptação das tiras criadas pelo cartunista Angeli, ícone da imprensa alternativa e do humor escrachado dos anos 1980.
Boa parte dos personagens que habitam o universo lisérgico do filme nasceram nas páginas da Folha de São Paulo, onde Angeli manteve por décadas uma coluna de charges e quadrinhos que retratavam o Brasil urbano com sarcasmo, crítica social e uma estética underground. Personagens como Rê Bordosa, Meia Oito, Wood & Stock e outros tipos marginais, fracassados e deliciosamente libertários surgiram ali, comentando com humor ácido os absurdos da realidade brasileira.
A obra nos apresenta dois hippies envelhecidos, Wood e Stock, que resistem ao tempo e se recusam a se adaptar ao mundo moderno. Vivem imersos em delírios psicodélicos, memórias de um passado revolucionário e o eterno lema: “sexo, orégano e rock’n’roll”. O “orégano”, aqui, funciona como uma alusão clara à maconha, e simboliza a liberdade, o prazer e a desconstrução de normas.
Mais do que uma animação para adultos, Wood & Stock é uma declaração de amor à arte nacional(e talvez uma das mais ousadas já feitas no campo da animação brasileira). Com uma estética propositalmente suja, underground, o filme abraça o traço nervoso e caótico de Angeli para construir uma narrativa onde o nonsense se mistura com críticas à sociedade de consumo, à caretice institucionalizada e à alienação tecnológica.

O elenco de vozes é um espetáculo à parte. A lendária Rita Lee dá vida à alcoólatra e libertária Rê Bordosa, uma das personagens mais cultuadas do universo de Angeli. Já os protagonistas têm suas vozes encarnadas por dois gênios da música brasileira: Tom Zé, mestre da experimentação e da desconstrução sonora, e Júpiter Maçã (ou Flávio Basso), figura lendária do rock psicodélico gaúcho. A escolha desses nomes não é mero capricho, ela amplifica o espírito do filme, criando uma aliança direta entre, o discurso visual, e a musicalidade que sempre acompanhou a contracultura brasileira.
A trilha sonora é uma verdadeira homenagem ao rock psicodélico e à música experimental brasileira. Com composições de Júpiter Maçã , Jorge Mautner, Rita Lee, Tom Zé, Mutantes e outros artistas nacionais, a trilha não apenas embala a história, como funciona como extensão dos personagens. São canções que explodem em cena com força, loucura e poesia, conferindo ao filme um caráter ainda mais vibrante e sensorial.
Produzido pelo estúdio Otto Desenhos Animados, em Porto Alegre, o filme é também uma prova de que a animação nacional pode ser potente, ousada e carregada de identidade, mesmo enfrentando um cenário de restrições orçamentárias e falta de incentivo. Wood & Stock foi feito à base de persistência e paixão, exatamente como os personagens que retrata.
Em tempos onde o audiovisual brasileiro sofre com cortes, desvalorização e disputas ideológicas, revisitá-lo é mais do que nostalgia: é resistência. É reafirmar que temos artistas capazes de provocar, rir de si mesmos e deixar marcas profundas, mesmo que à margem, mesmo que em traços tortos e coloridos de rebeldia.
Aqui, valorizar as produções nacionais é caminho direto para se dizer "patriota". Não adianta se autodenominar isso e continuar sendo vira-lata das produções gringas. Elas também são importantes, claro. Mas mais do que isso, temos um relicário de obras brasileiras que refletem nossa realidade, cultura, identidade e lamentos, e que merecem, sim, ocupar o centro da cena.
Tamara Nunes

Jornalismo/UCPel
Poeta, Artesã, Confeiteira
Taróloga e Colunista
Comentários (1)
❤️❤️❤️
11 meses atrás