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Não Faz Sentido Para Mim Ouvir Rap ou Hip Hop Americano, Se no Brasil a Realidade é Diferente

[...] Se isso te incomoda, talvez o problema não seja meu.

Não Faz Sentido Para Mim Ouvir Rap ou Hip Hop Americano, Se no Brasil a Realidade é Diferente
Imagem Internet

Sei, vou mexer nos vespeiro, mas como homem negro e músico, me identifico com a música negra raiz, sou um cara de Rock n’ Roll e adoro uma roda de samba, um Blues, um Jazz, um Soul, mas nunca consegui me identificar com o “Rap Ostentação” gringo que é amplamente consumido aqui no Brasil.


Não acredito que P. Diddy, Kanye West, Eminem, 50 Cent, Drake ou Kendrick Lamar, tenham mais adeptos por aqui que Câmbio Negro, que Racionais MC’s, Thaíde e DJ Hum, MV Bill, Marcelo D2, Criolo, Sabotage, entre outros. E olha que eu nem sou chegado a Rap, Hip Hop, Trap e afins, mas esses brazucas que acabei de citar dão aula e qualquer pessoa que ame música, todos deveriam ouvi-los e aprender com eles.


Não é que eu não goste, admiro 2Pac, Notorius Big, Ice-T, Snopp Dogg – mas tenho um olhar torto ao Rap americano e suas letras, não me vejo consumindo essa gente, se aqui no Brasil, a nossa rima é verdadeira com a realidade, a arte e resistência, mas que hoje está sendo ignorada, assim como outros movimentos que foram esquecidos de propósito para não ceder espaço a muita gente preta do mais alto talento. E que atualmente insiste em apenas ostentar que nem eles lá na gringa, sem apresentar nada de concreto ou interessante.


E não, isso não é sobre qualidade técnica. Nem sobre querer criar muros culturais. É sobre entender que o rap, sempre foi ferramenta é uma transformação, assim como já foi o meu Rock n’ Roll. E transformação, irmão, tem endereço, CEP, periferia, quebrada, favela, roça, beco, viela.




Quando ligo o som e escuto Câmbio Negro e Racionais, eu me reconheço. As dores são as minhas. As lutas são as minhas. As vitórias, quando vêm, também são. Então, me desculpa se não vibro com letras que falam de uma realidade que não me atravessa. Não é desmerecimento, é prioridade. Não faz sentido me emocionar com quem não sabe nem onde fica meu país, enquanto aqui tem gente rimando contra o racismo, a fome, a bala perdida, o genocídio do povo preto, da juventude pobre, dos corpos que o Estado insiste em apagar.


Prefiro gastar meus ouvidos com quem me representa. Com quem transforma a língua portuguesa em faca, escudo e poesia. Com quem pega o batuque do samba, do coco, do maracatu e bota na base do "boom bap". Com quem entende que fazer rap no Brasil nunca foi só fazer música — é sobreviver rimando.


Se isso te incomoda, talvez o problema não seja meu. Talvez o incômodo seja perceber que, no fundo, a gente ainda foi treinado pra achar que tudo que vem de fora é melhor. E não é. Nunca foi.


O som Brazuca é potente, é afiado, é necessário. E enquanto tiver voz ecoando das ruas, favelas, vielas pro mundo, é com ela que eu vou me alinhar. Porque a música brasileira, pra mim, não é só batida de tambor. É um espelho.




Jeff Soares

Músico

Jornalista

Apresentador do Aqui de Casa Podcast

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