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A Perversidade Disfarçada de Virtude

[...] não está apenas nas ações, mas na cegueira moral.

A Perversidade Disfarçada de Virtude
Imagem Internet/Unsplash

Há uma inquietante contradição que percorre a história da humanidade e que, infelizmente, vejo se repetir em minha própria vida: algumas das pessoas mais perversas que conheci tinham o hábito insistente de falar sobre Deus, amor e bondade. Com palavras suaves e gestos ensaiados, citavam passagens bíblicas, pregavam a paz e se diziam defensoras do bem — enquanto, na prática, feriam, julgavam e excluíam sem qualquer remorso. O mais assustador? Acreditavam piamente que estavam fazendo o certo.


Lembro de uma pessoa próxima, alguém que se dizia extremamente religiosa. Estava sempre com uma Bíblia na mão e uma pregação na ponta da língua. Aos olhos da comunidade, era exemplo de fé. Mas em casa, era outra história. Havia rigidez, críticas constantes, indiferença com a dor do outro. Um dia, vi essa pessoa humilhar um vizinho por causa de sua orientação sexual, dizendo que "Deus abomina esse tipo de gente". Fiquei chocada. Como alguém que fala tanto de amor pode pregar tanto ódio? E pior: ela não via maldade em suas palavras — se via como mensageira da “verdade divina”.


Outra vez, convivi com alguém no ambiente de trabalho que constantemente falava sobre empatia, espiritualidade, gratidão. Fazia publicações nas redes sociais com frases de efeito, fotos em templos, orações em legendas. Mas nos bastidores, agia com falsidade, sabotava colegas, espalhava fofocas e manipulava pessoas para se beneficiar. Um dia, confrontei essa pessoa, e ouvi a frase que jamais esqueci: “Eu sou uma pessoa boa, só não tolero gente ruim.” Era a perversidade disfarçada de justiça.


Esses exemplos não são isolados. Ao longo da vida, aprendi que as pessoas verdadeiramente más raramente se reconhecem como tais. Elas constroem uma narrativa onde são vítimas ou heróis, nunca vilãs. Usam Deus como escudo, a fé como justificativa, o discurso do amor como adorno para esconder o controle, a inveja, o preconceito e a frieza.


A perversidade, nesse contexto, não está apenas nas ações, mas na cegueira moral. Se traem, mentem ou machucam, é "porque o outro mereceu". Se excluem, manipulam ou punem, é "para o bem de todos". Assim, a maldade se torna aceitável quando travestida de zelo, quando se afirma em nome da “família”, da “tradição”, da “fé”.


Mas o verdadeiro amor não precisa se autopromover. Ele não grita, não humilha, não exclui. É discreto, corajoso, humilde. E é essa a grande diferença. Já conheci também pessoas de fé silenciosa, que não precisam citar versículos para viver a compaixão. Gente que reconhece seus próprios erros, que pede desculpas, que acolhe o outro mesmo quando não entende. Pessoas que não se dizem boas — elas simplesmente são.


A bondade verdadeira não é uma performance. É uma prática constante de olhar para dentro e se perguntar: Estou sendo justo? Estou ferindo alguém? Estou me escondendo atrás de um discurso para não assumir minha crueldade? É uma luta diária contra o ego, contra o desejo de ter razão a qualquer custo.


Hoje, olho com mais cuidado para quem mais fala sobre bondade, mas menos a pratica. Porque aprendi que palavras encantam, mas atitudes revelam. E que os mais perigosos não são os declaradamente cruéis, mas os que machucam acreditando que estão fazendo o bem.




Liziane Borges

Psicopedagoga

Colunista

Apresentadora do Cabaré, Baile da Preta

e Agô Podcast

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