Deus Sabe O Que Tu Gosta, Mas o Diabo Também
[...] Esse texto não é só sobre o DEUS cristão e diabo cristão.
Como a religião é usada para justificar comportamentos tóxicos, e o que isso revela sobre nós??
Tem uma frase que ecoa na minha cabeça nos últimos dias: "Deus sabe o que tu gosta, mas o diabo também." Ela me vem à mente toda vez que vejo alguém usar a fé como escudo, como justificativa ou como vitrine para encobrir o que tem de mais sombrio. E poucas coisas revelam tanto sobre a sociedade quanto a forma como a religião é usada para manter relações de poder e controle, especialmente dentro das dinâmicas afetivas.
Historicamente, a religião sempre teve um papel ambíguo: ao mesmo tempo em que foi fonte de acolhimento, resistência e identidade espiritual, também serviu para justificar violência, dominação e desigualdade. Desde as Cruzadas medievais até o uso da Bíblia para defender a escravidão no Brasil e nos Estados Unidos, o nome de Deus já foi colocado em muitas sentenças que Ele provavelmente não teria assinado.
O filósofo Friedrich Nietzsche, crítico feroz da religião institucionalizada, escreveu que "a fé religiosa é uma firma de mentira necessária para manter as massas sob controle". Em O Anticristo (1888), ele denuncia o uso da moral cristã para impor submissão, principalmente às mulheres e aos pobres. Para Nietzsche, muitas práticas religiosas funcionam mais como máscaras sociais, maneiras de esconder vícios, desejos e abusos sob um verniz de santidade.
Segundo uma pesquisa realizada pelo Instituto Avon e Data Popular (2016), 56% s mulheres brasileiras que sofreram violência doméstica afirmaram que seus parceiros usavam a religião para justificar o controle ou os maus-tratos. Frases como “Deus odeia o divórcio” ou “mulher tem que obedecer ao homem” ainda ecoam como leis sagradas, mesmo quando vão contra qualquer ética de cuidado.
Esse discurso moral seletivo não é novo. Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo (1949), já alertava que as instituições religiosas ajudaram a construir o ideal de "mulher santa" como sinônimo de mulher submissa, resignada e autonegligente. Assim, a religião se torna, muitas vezes, mais um capítulo da pedagogia da dor ensinada às mulheres.
E provavelmente tu, que está aqui acompanhando a atualização do site do Aqui de Casa Web Rádio, conhece alguém assim: uma pessoa que vive falando em Deus, em fé, em princípios, mas no off destila ódio, preconceito, misoginia e outros crimes disfarçados de opinião. Gente que fala bonito nas redes, é um "cidadão de bem" na praça, mas que é cruel dentro de casa ou em silêncio nos corredores.
Além disso, religiões também são usadas como pretexto para rejeitar identidades LGBTQIA+, sustentar preconceitos raciais ou ignorar problemas sociais. E o mais perigoso é que tudo isso é feito em nome de uma fé que, paradoxalmente, prega o amor. Mas é preciso separar espiritualidade de manipulação. Fé verdadeira liberta, questiona e transforma. Ela não é usada como mordaça, nem como chicote.
Deus sabe o que tu gosta, e o que tu merece. Ele não te criou para ser a sombra de ninguém, nem para servir de esteio ao ego ferido de quem usa o nome dele para justificar seus próprios demônios. A religião não pode ser escudo para violência, nem disfarce para o medo de ser quem se é. Talvez o diabo saiba o que tu tolera. Mas Deus sussurra, com paciência e cuidado, que tu merece mais. Merece amor com verdade, silêncio com respeito, fé com liberdade. Porque a espiritualidade não é uma prisão. É caminho. É encontro. É luz que acolhe, não sombra quê apaga.
No fim das contas, é isso: Deus sabe o que tu gosta, inclusive aquilo que tu finge não querer. Mas o diabo também sabe. E ele não perde uma chance de te ver tropeçar justamente onde tu tenta parecer mais forte, ele puxa a tua máscara justamente onde tu mais atua.
Esse texto não é só sobre DEUS cristão e DIABO cristão. É como a humanidade prefere jogar a culpa de suas próprias travas em terceiros, usam tudo pra justificar o que são apenas seus pensamentos, esse texto é sobre a dualidade das religiões e dos falsos religiosos.
No texto foi citado em um contexto Católico, mas existe crente ruim, budista ruim, umbandista ruim, existe gente ruim de todas as cores, formas, classes sociais, em todos os nichos e contextos.
Cuidado pra não atuar demais e cair no 'pecado" de destilar ódio. Independente da religião, aqui respeitamos todes desde que haja AMOR.
Esse texto fala sobre Deus e o diabo, sim, mas também fala sobre escolhas. Sobre como cada pessoa carrega dentro de si a capacidade de amar ou ferir, acolher ou excluir, curar ou manipular. Religiões são caminhos, mas quem decide o rumo é quem caminha. No fim, o divino e o sombrio nem sempre estão fora , às vezes, moram nas intenções por trás do que a gente escolhe defender. E é aí que a fé deixa de ser só doutrina e passa a ser espelho.
Tamara Nunes

Jornalismo/UCPel
Poeta, Artesã, Confeiteira
Taróloga e Colunista
Comentários (1)
Texto necessário e corajoso! Obrigada por escrever isso. Precisamos demais dessas reflexões nos dias de hoje, principalmente sobre as máscaras que tanta gente insiste em usar em nome da fé.
11 meses atrás