Perspectivas #19: Um Ponto Final…
…para tornar memória e manter vivos em nossos corações as vidas, os amores, os momentos…
Neste último domingo de manhã (06/07) eu quis assistir a última apresentação do Black Sabbath, que juntou sua formação original para o evento “Back to the Beginning”. Embora eu confesse não ser o maior dos fãs da banda em termos de conhecimento da obra, apesar de gostar muito do que conheço do trabalho deles, não pude deixar de sentir no corpo o peso daquele momento: era um final, um ponto final, um encerramento. E não qualquer encerramento: foi o momento que marcou o fim majestoso da atividade de um dos maiores acontecimentos do mundo da música. Muito do que conhecemos hoje na música, sobretudo no mundo do metal, bebe das águas do Black Sabbath. E aquele foi o espetáculo final, como que se dá um fim a algo tão significativo? Não sei, não existe resposta pronta. Mas eles souberam, ah se souberam!
Sei que já abordei a questão dos ciclos por aqui no Perspectivas, e não quero ser repetitivo com as coisas, mas quantos pontos finais a gente vive ao longo da vida? Quantas coisas cheias de sentido uma hora acabam, uma hora chega o seu ponto final… E eu me pego pensando no quanto até mesmo um final pode ser cheio de sentido, como foi o caso do Black Sabbath em sua apresentação nesse último sábado, como são tantos outros casos por aí afora.
Quantas coisas a gente gostaria que durassem para sempre? Momentos, obras, vidas… Estarmos imersos numa realidade cuja uma de suas maiores leis vem de Cronos, o tempo, nos faz perceber que não há nada que escape do seu domínio. Tudo o que existe deve ter um final, a temporalidade carrega a tudo e a todos em uma direção que só avança, não recua. Mas nós sonhamos. Buscamos significados para todas essas existências, inclusive a nossa própria, como uma forma de transcender o domínio de Cronos - e enquanto as memórias existirem, conseguimos. Somos imortais nas memórias que ficam na história, as que deixamos no mundo para aqueles que vêm depois de nós. Os artistas talvez sejam peritos na arte da imortalidade, já que, apesar do seu corpo perecer, sua obra permanece como memórias materializadas.
Isso me faz pensar sobre o que estamos fazendo da nossa vida. Pensar na morte é pensar na vida, afinal. Pensar nas coisas que podem acabar é, também, pensar que elas ainda estão acontecendo. Viver uma vida a partir da perspectiva da possibilidade de encontrar sentido é, também, dar ao seu ponto final a possibilidade de ser um final digno de sentido. Talvez por isso os artistas, as vidas, os amores, os momentos, sejam, de certa forma, eternos: porque tiveram sentido, porque significaram algo em vida. Quando for a hora do fim, será essa também a hora de um novo começo. Um ponto final para tornar memória e manter vivos em nossos corações as vidas, os amores, os momentos…
…ou talvez eu esteja sonhando, tal qual o bobo poeta que em mim habita.
Mas as pontes continuam a ser construídas aqui no Perspectivas.
Com carinho
Igor Jeske

Psicólogo
Músico
Colunista
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