O Machismo Escancarado no Congresso Brasileiro
[...] É urgente que o Congresso e o Governo Federal avancem em políticas de combate ao machismo institucional.
O Brasil vive, em pleno século XXI, um ciclo de retrocessos civilizatórios no que diz respeito à igualdade de gênero — e o Congresso tem se mostrado um dos principais palcos desse espetáculo vergonhoso. Os casos de machismo explícito envolvendo parlamentares, somados aos ataques sofridos recentemente pela ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, revelam não apenas uma cultura política arcaica, mas também um projeto contínuo de deslegitimar a atuação de mulheres em espaços de poder.
Marina Silva, uma das figuras mais respeitadas internacionalmente por sua trajetória ambiental e ética na política, tem sido alvo recorrente de agressões verbais com conotação machista, muitas vezes travestidas de “críticas” à sua gestão. Os ataques ultrapassam o campo técnico e mergulham na desqualificação pessoal: questionam sua inteligência, ridicularizam sua aparência física, e desvalorizam sua atuação com expressões recheadas de misoginia e condescendência. Não é por acaso — é sintoma de um sistema que ainda estranha, teme e combate a presença de mulheres em cargos estratégicos.
No Congresso, o cenário não é melhor. Casos de assédio, interrupções constantes quando parlamentares mulheres discursam, piadas machistas e episódios de desrespeito têm sido comuns — e, pior, normalizados, dias atrás a Deputada Renata Souza (PSOL-RJ) foi intimidada por um deputado da extrema direita porque estava carregando sua filha no colo, a situação só foi contornada quando uma parede humana formada por colegas da esquerda foi formada para protegê-la. Em 2024, a deputada federal Sâmia Bomfim foi chamada de "descontrolada" em meio a um debate acalorado; meses antes, uma senadora foi interrompida com um “vai cuidar da louça” vindo de um colega de plenário. A misoginia parlamentar é ruidosa, mas raramente punida.

Deputada Renata Souza - Foto: Octacílio Barbosa
A postura da maioria dos partidos frente a esses episódios é o silêncio, o corporativismo ou o já manjado “foi tirado de contexto”. O machismo institucionalizado se esconde sob discursos polidos e estratégias de invisibilização: quando uma mulher é atacada, o que se espera é que ela “tenha casca grossa”. Quando um homem ataca, o que se vê é condescendência e silêncio cúmplice.
A presença de Marina Silva no ministério representa, para muitos desses parlamentares, uma afronta simbólica. Mulher, negra, amazônida, com uma história de vida marcada por superação e compromisso ético — ela rompe todos os estereótipos impostos pelo patriarcado político tradicional. Sua existência no poder incomoda mais do que qualquer medida ambiental ou fala contundente.
É urgente que o Congresso e o Governo Federal avancem em políticas de combate ao machismo institucional. Não bastam campanhas pontuais ou notas de repúdio: é preciso criar mecanismos eficazes de responsabilização, proteção e valorização das mulheres na política. A democracia só será plena quando elas puderem atuar sem medo, sem humilhação, sem silenciamento.
Marina Silva resiste. Mas ela não deveria resistir sozinha.
Jeff Soares

Músico
Jornalista
Apresentador do Aqui de Casa Podcast
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