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O Som da Resistência: O Rock, os Corpos Negros e as Vozes que nunca se calaram

O Jazz é Negro. O Blues é Negro. O Rock é Negro.

O Som da Resistência: O Rock, os Corpos Negros e as Vozes que nunca se calaram
Imagem Internet

No dia 13 de julho, é celebrado o Dia Mundial do Rock, um gênero que sacudiu estruturas, mexeu com a cabeça de quem estava acostumado ao conservador, ao convencional. Foi combustível para incontáveis épocas, gerações, e esteve presente em muitas lutas importantes. Foi mais que um gênero musical: foi um movimento social que, embora único, é cheio de camadas, subgêneros e opiniões diversas. Apesar de ser visto de fora como “uma coisa só”, o rock corrompeu padrões e fez da rebeldia uma arte.


Expressão, autenticidade e liberdade, assim é visto o “roquenrou”. Do punk rock ao nu metal, folk metal, power metal, heavy metal... para o mundo todo, é apenas “rock” e a galera que anda de preto. Mas, como quase tudo que se transforma em ícone global, o rock também carrega contradições profundas e uma omissão histórica de suas verdadeiras origens: o apagamento dos corpos negros que o gestaram.


Antes de Elvis virar o rei do rock, Robert Johnson já tinha vendido sua alma ao diabo na encruzilhada do blues. O pacto que ele fez não foi só com a música, mas com a história: ele foi um dos pais do que viria a ser o Rock’n’Roll, tocando com os dedos e a alma feridos pelo racismo do sul dos Estados Unidos. Existiram muitos pais pretos para o rock, mas por que Elvis ganhou a coroa? A gente sabe muito bem, né? Pelo mesmo motivo que falam que os portugueses “descobriram” o Brasil.


Jimi Hendrix


Décadas depois, o mundo assistia, com olhos arregalados, à genialidade de Jimi Hendrix fazendo a guitarra chorar. Jimi um dos únicos artistas negro no digníssimo Woodstock de 69. Embora sua banda, a The Jimi Hendrix Experience, fosse formada por músicos brancos (ingleses), a banda que o acompanhou no palco em Woodstock, chamada Gypsy Suns and Rainbows, tinha músicos negros, incluindo Billy Cox no baixo, Larry Lee na guitarra e Juma Sultan na percussão. Se isso não é fazer história, então não sei o que é.


Prince


Depois veio Prince, que reinventou o som, a estética, o corpo e o amor, desafiando tudo que queriam definir como masculino, negro, roqueiro. Prince veio pra quebrar o estereótipo do negro másculo e nada sensível. Com sua aparência andrógina e talento indiscutível com a guitarra, fez história incontáveis vezes, principalmente quando tocou o solo icônico de "While My Guitar Gently Weeps", do George Harrison, na cerimônia de homenagem ao artista, quando o mesmo teve o nome incluído no Hall da Fama. Prince protagonizou uma das mais marcantes apresentações da noite em homenagem ao Beatle George.


Slash


E no meio disso tudo, lá estava Slash. Num cenário da década de 80, onde a moda era deixar o cabelo pra cima com laquê, Slash vem com seu cabelão cacheado naturalmente armado pra fazer história. Filho de uma estilista negra, com seu cabelo indomável e sua guitarra cravada na história do Guns N’ Roses, ele inegavelmente é um dos maiores guitarristas de todos os tempos. Muitas vezes celebrado, mas raramente lembrado como parte da linhagem negra do rock.


A cor da pele desses homens não é um detalhe: é resistência. Porque, para o negro, o palco sempre foi espaço de exceção, onde se permitia estar, desde que fosse para entreter. De forma direta ou não, o negro só era aceito nos ambientes se fosse para “servir”.


Esse padrão ecoa no mundo todo, e até aqui mesmo, no Brasil.


Em Piratini, interior do Rio Grande do Sul, o avô de uma amiga, que é um senhor negro retinto e músico, me contou em 2019, pouco antes do seu falecimento, que nos anos 70 os únicos negros que podiam entrar na Sociedade Recreativa Piratiniense eram os artistas. Os outros eram barrados na porta. Foi desse racismo escancarado que nasceu a Sociedade Recreativa 13 de Maio, um clube criado por e para negros, um refúgio e símbolo de dignidade, onde corpos negros podiam dançar, amar e existir com liberdade e autenticidade.


Hoje, enquanto tocam esse gênero por todo canto para celebrar o Dia Mundial do Rock, é preciso lembrar: o som que originou o rock veio do povo negro. Veio das dores ancestrais, das festas nas senzalas, das igrejas com tambor escondido, dos becos de Nova Orleans, das resistências sulistas e das periferias do Brasil.


Celebrar o rock sem reconhecer sua raiz negra é reproduzir um apagamento histórico que já se perpetua há anos em muitos âmbitos, principalmente nas questões artísticas. Sempre enterrando o mérito negro. Sempre engrandecendo pessoas que só roubaram da nossa cultura e comercializam como se fosse delas.


O Jazz é Negro. O Blues é Negro. O Rock é Negro.


Hoje, assim como tudo nesse mundo é miscigenado e tem elementos de muitas culturas, o que é mágico, mas não podemos esquecer da origem desse gênero tão importante, que essa semana celebramos com vocês na Aqui de Casa Web Rádio!




Tamara Nunes

Jornalismo/UCPel

Poeta, Artesã, Confeiteira

Taróloga e Colunista

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