Iniciação Não É Palco, É Compromisso
[...] sem pressa, sem vaidade, mas com verdade e amor.
Na minha caminhada dentro do Candomblé, eu já vi muita coisa. Vi gente chegando com o coração aberto, cheia de vontade de aprender e servir, e vi também quem chegou com pressa, querendo logo o crachá, o título, a reverência. E confesso que isso mexe comigo. Porque eu sei o quanto é difícil sustentar uma escolha espiritual verdadeira. Não é sobre status, é sobre renúncia. Não é sobre palco, é sobre chão batido, axé e suor.
Eu mesma, quando decidi me iniciar, não fiz isso para ganhar aplauso. Fiz porque senti um chamado que não me deixou em paz até que eu dissesse sim. Foi difícil, foi dolorido em muitos momentos. Me perguntei várias vezes se eu estava preparada, se eu era digna, se conseguiria carregar esse compromisso. Mas segui, porque sabia que não estava caminhando sozinha. Meus ancestrais estavam comigo, e isso me dava força.
Hoje, quando olho para trás, vejo que cada renúncia valeu a pena. Mas também vejo que o caminho do axé não é fácil para quem busca reconhecimento rápido. Quem quer aplauso, se frustra. Porque no terreiro, a gente aprende a servir, a ouvir mais do que falar, a se colocar no seu lugar, sem pressa de subir degrau nenhum. Porque cada degrau tem seu tempo, e quem tenta pular etapas cai feio.

Eu observo esse boom de novos iniciados com olhos cuidadosos. De um lado, fico feliz porque a espiritualidade está viva e pulsando. De outro, fico atenta, porque o terreiro não pode se transformar em palco de ego ferido ou vaidade disfarçada de fé. Axé é caminho de vida, não é troféu pra enfeitar estante.
Na minha vivência, eu aprendi que a iniciação é uma entrega. É abrir mão do que você acha que sabe, pra aprender tudo de novo, do jeito certo. É um compromisso que não termina no dia da feitura. Pelo contrário, ali é só o começo. A vida no axé é feita de silêncio, de humildade, de aprendizado constante. De serviço ao coletivo.
Eu penso que cada pessoa que decide entrar por essa porta precisa se perguntar: estou fazendo isso por mim ou pelos outros? Pelo meu espírito ou pelo meu ego? Que nossas respostas sejam honestas, porque o orixá, o inquice, o vodum, o guia... eles sabem a verdade que mora no nosso coração, mesmo quando a gente tenta esconder.
Que o axé continue guiando meus passos e que eu jamais me esqueça do motivo que me fez dizer sim a esse caminho. E que quem chega agora encontre espaço para aprender, servir e crescer — sem pressa, sem vaidade, mas com verdade e amor.
Liziane Borges

Psicopedagoga
Colunista
Apresentadora
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