Cartas para Elas: Mães e a Vontade de Ser Pai
[...] é sobre assumir papéis...
Ei, mulher
Hoje eu tava sentada, com a Maria no colo, pensando que, se eu fosse pai, tudo seria diferente. Faz sete meses que eu não descanso. E eu não digo isso de um lugar de guerreira – na verdade, eu não aguento mais esse papel de “mulher forte que tudo suporta”.
Esses dias foi a primeira vez que alguém ficou com a Maria por uma manhã e uma tarde, pra eu fazer algo por mim. No fim do dia, essa pessoa precisou tomar remédio pra dor nas costas. Mesmo assim, afirmo que isso não é um terço do resultado de cuidar de uma criança 24 horas por dia, 7 dias por semana. Sozinha.
Fico aqui lembrando que, antigamente, mesmo que fosse mal e porcamente, havia uma espécie de egrégora que cuidava das crianças. Uma rede, ainda que falha, onde sempre tinha uma avó, uma tia, uma vizinha – alguém pra segurar no colo, alguém pra dar banho, alguém pra ninar. Hoje não. Hoje cada mãe carrega seu filho sozinha, na solidão de quatro paredes.
E aí me vem uma grande verdade: é sobre assumir papéis. Uma mulher não tem como não assumir o papel de mãe depois de parir um filho. Mas um pai, uma avó, um avô, uma tia… esses podem simplesmente não assumir.
E pra ser honesta comigo mesma e contigo, não tá tudo bem.
Se eu fosse pai, qualquer coisa que eu fizesse por mim seria vista como necessidade. Qualquer coisa que eu fizesse pelos meus filhos seria vista como incrível. Mas sendo mãe, tudo que faço é só mais uma obrigação. E o que eu deixo de fazer, uma falha.
Eu lembro do meu pai. Minha mãe morreu quando eu era bebê. Na minha primeira infância, vi ele passar dias deitado, triste, depressivo. E ninguém dizia nada. Ele era o pai. Ele pôde adoecer. Eu sou mãe e, como vocês sabem, meu primogênito morreu há pouco mais de meio ano. Eu não tenho tempo nem pra chorar, e minha terapia é feita com a Maria no colo.
Aos poucos, os sintomas dessa solidão materna vão aparecendo.
Raiva da família. Dissociação pra aguentar a rotina. Vontade de que os filhos cresçam logo, só pra aliviar um pouco o peso. Arrependimento por ter engravidado, ainda que o amor pelos filhos siga existindo.
É o cansaço de maternar sem rede e, principalmente, sem pausa.
A verdade é que não sou só eu que tô doente. Tá todo mundo. Uma sociedade inteira adoecida.
Porque nesse caso, já não é mais sobre a mãe e sim sobre a criança. Sobre criar laços, estar presente – coisa tão rara hoje em dia.
E novamente, onde tá a pausa? A pausa do trabalho, a pausa do estudo, a pausa da tua própria vida. A disposição de se descentralizar um pouco e ser apenas parte da vida da criança.
O tempo vai passando, e o único vínculo seguro que a criança conhece é com aquela que a gerou. Será que isso é saudável?
O menos pior disso tudo é que, no fim das contas, quem tá falhando não somos nós. É a família inteira. Onde tá essa gente toda que bate no peito dizendo que ama tanto a criança, mas não se levanta nem por um minuto pra segurar no colo, trocar uma fralda ou dar um banho? Pra dizer: “deixa teu filho aqui comigo que eu quero passar uma tarde com ele”, “tô com saudade do teu filho, não quer deixar ele aqui uma manhã pra tu fazer outra coisa?”
Amar criança é bonito nas fotos, mas amor de verdade aparece é no cuidado. Aparece quando tu te dispõe a abrir mão de um pedaço do teu dia pra garantir que essa mãe não enlouqueça e, principalmente, que essa criança cresça com amor de sobra.
A verdade é que todo mundo gosta de dizer “conte comigo pra qualquer coisa”, mas quando esse “qualquer coisa” aparece, sempre há uma desculpa. Ou nunca há tempo.
“Não tenho tempo” é a frase predileta de quem não sabe eleger prioridades.
É incrível como a vida tem um jeito estranho de nos ensinar aquilo que precisamos aprender. Eu sempre disse: “não sinto falta da minha mãe, nunca tive.” Mas depois que virei mãe e comecei a experienciar a grandeza dessa missão, eu consigo compreender a consequência dessa ausência.
Às vezes eu queria ser pai, mas é muito melhor ser mãe. Não é à toa o ditado de que “Ser mãe é padecer no paraíso”.
Porque, apesar de tudo, eu olho pra Maria dormindo e sinto uma paz que ninguém nunca me deu. É estranho dizer isso, mas essa paz dói, porque ela vem junto com o medo de falhar, com o peso de ser tudo pra alguém que nem sabe falar ainda. Mesmo que na minha história não exista colo de mãe, eu aprendo diariamente o valor que isso tem. E esse aprendizado é solitário, mas ele me fez ser quem eu sou.
Mas sabe, hoje eu não tenho conselhos. Só essa constatação:
A gente tá sozinha. Mas a culpa não é nossa.
É de um mundo que esqueceu que criança não era pra ser criada por uma só pessoa. E que mãe também é gente.
Vai passar.
Com carinho,
Amanda Beatrice

Taróloga
Apresentadora
Colunista
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