Crônica: Conversa com a Dor
Uma conversa necessária.
Era noite, e como toda noite desde que tudo aconteceu, a vida parecia menor, mais fria. O silêncio tinha aquele peso de coisa viva — ocupava espaço, caminhava atrás de mim, sentava no sofá do lado, respirava devagar. Então, resolvi sentar na varanda com meu café. A luz do poste lá fora piscava, como se também não tivesse certeza de nada. E foi ali que ela apareceu: a Dor. Não bateu na porta. Entrou como se fosse da casa. E, pensando bem, talvez fosse.
— Você de novo? — perguntei.
Ela não respondeu de cara. Só se encostou na parede, cruzou os braços e me olhou como quem já sabe todas as respostas que eu ainda nem ousei formular.
— Achei que hoje eu ia conseguir dormir — falei, tentando parecer firme.
— É que hoje faz uma semana. Ou um mês. Ou um ano. Tanto faz. O tempo, quando se perde alguém, bagunça tudo. — disse ela, sentando na cadeira em frente à minha. — Achei que você ia me chamar.
— Eu não te chamei.
— Mas pensou nela. E sempre que você pensa nela com esse nó na garganta... eu venho.
Suspirei. Era inútil discutir com a Dor. Ela tem o mau hábito de conhecer a gente melhor do que a gente mesmo.
— Você não se cansa? Ficar rondando por aqui?
Ela sorriu. Um sorriso cansado.
— Canso. Mas você ainda deixa a porta entreaberta. Ainda espera aquele café que ela te prometeu. Ainda dorme ouvindo uma playlist que tem Alcione, A-ha e que leva meu nome. Ainda insiste em cruzar velhos caminhos como se eles fossem mapa de volta. Ainda dá moral para pessoas que só usam você para massagear o próprio ego e que nunca irão te levantar quando estiver ai, desse jeito.
— E se levantarem?
— Não irão. — ela disse, com firmeza.
Pensei em todas as vezes que imaginei o som do telefone tocando, as conversas aceleradas, repetidas. Mas nunca aconteceu. Sem reciprocidade. E você, você sempre volta.
— Você é cruel. — murmurei.
— Eu sou necessária.
Ficamos em silêncio um tempo. O tipo de silêncio que não é paz, mas suspensão.
— E se eu não quiser mais você aqui?
— Eu vou embora. Mas você precisa me deixar ir. Parar de chamar de amor quem é ausência. Parar de achar que alguém que vai embora leva tudo. Só levam a parte deles e que não era nada por você. A tua... ainda está aqui, abra logo os olhos e veja, se olhe na droga do espelho.
Eu engoli seco.
— Dói.
— Eu sei. Mas vai doer menos quando você parar de se culpar por amar demais, por se doar demais. Isso não é crime. Isso é humano.
A luz do poste parou de piscar. O vento trouxe o cheiro da madrugada. A Dor se levantou, como quem entende que o recado foi dado.
— Eu volto amanhã? — ela perguntou.
— Não sei. — respondi. — Talvez sim. Talvez um pouco menos.
Ela assentiu. E antes de sumir no escuro, falou:
— Cada vez que você me ouvir com o coração aberto, eu fico menor. Um dia, eu nem volto.
E me deixou sozinho. E pela primeira vez em dias, aquele silêncio parecia menos cruel. Era o início de alguma outra coisa. Uma conversa nova. Comigo mesmo. E sem ela.
Jeff Soares

Músico
Jornalista
Apresentador do Aqui de Casa Podcast
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