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Tocando Agora:

Elizeth Cardoso, “A Divina”

Tua voz eu escuto!

Elizeth Cardoso, “A Divina”
Imagem Internet

“Vai, barracão, pendurado no morro

E pedindo socorro à cidade a teus pés

Vai, barracão tua voz eu escuto

Não te esqueço um minuto

Porque sei que tu és

Barracão de zinco

Tradição do meu país

Barracão de zinco

Pobretão, infeliz”

Compositores: Luiz Antonio / Oldemar Teixeira De Magalhaes

Barracão - Elizeth Cardoso, Jacob do Bandolim e Zimbo Trio


Com a emoção que me é peculiar, cantarolo essa canção de tempos em tempos, sabe aquela doce lembrança do rádio à pilha, da Rádio AM e do cheiro de pão da Ernestina, minha falecida Vó, que se estivesse ainda nesse plano estaria com mais de 100 anos, completados agora no último dia 18 de Julho.


Um pouquinho antes, em 16 de julho, nascia a voz que me faz lembrar da minha Vó, a divina Elizeth Cardoso (1920‑1990), a cantora carioca reverenciada como “A Divina” e precursora da bossa-nova, cantora dos mais lindos sambas-canção e boleros já vistos. Sua voz foi única e sua presença imponente, onde Elizeth passou deixou marcas profundas.




Nascida em São Francisco Xavier (RJ), Elizeth cresceu rodeada pela música. Seu pai era seresteiro, sua mãe cantora, e a casa estava sempre cheia de instrumentos e canções. Com 5 anos, já se apresentava em eventos locais – como a Sociedade Kananga do Japão – aos 16, em festa de aniversário com presenças marcantes como a de Jacob do Bandolim, ela foi convidada a cantar e logo iniciou na Rádio Guanabara, em 1936, a figurar entre grandes nomes como Noel Rosa e Vicente Celestino.


Nos anos 1940, transitou por clubes e rádios até o sucesso nacional em 1950, quando gravou “Canção de Amor” — samba que virou hit e a consolidou como estrela da Rádio Tupi. Seu talento também transbordou para o cinema e a TV, participando de programas pioneiros como o “Canção do Amor” na TV Tupi em 1951. Em 1958, respondeu ao convite de Vinícius de Moraes e gravou “Canção do Amor Demais”, disco considerado o primeiro da bossa nova, com arranjos de Tom Jobim e violão de João Gilberto — composição ultrapassando fronteiras e redefinindo a música brasileira. O álbum incluía clássicos como “Chega de Saudade”, “Outra Vez” e “Luciana”. Seu impacto foi imediato, Vinícius dizia: “A verdade é que Elizeth dava aula de canto”.


No auge da ditadura. ao lado de Jacob do Bandolin e acompanhados pelo Zimbo Trio, gravou um dos álbuns ao vivo mais aclamados da Música Brasileira, o Ao Vivo Teatro São Caetano (1968), onde saiu a versão mais marcante de Barração, acompanhada em uníssono pelo público presente.


Jacob do Bandolim e Elizeth 


Interpretou gêneros como samba-canção, choro e bossa com profundidade e autenticidade, ao lado de contemporâneas como Maysa e Dolores Duran. Lançou mais de 40 discos em vida e gravou diversos álbuns em Portugal e América Latina. Fez shows até os anos 1980, turnês internacionais e participou em projetos como “Todo Sentimento” (1989), ao lado do violonista Raphael Rabello — álbum lançado postumamente e relançado no centenário.


Devemos celebrar a Música Brasileira e os nossos músicos brasileiros e Elizeth Cardoso deve estar no centro dessa celebração, foi mais que uma voz, foi uma alma brasileira. Sua capacidade de emocionar, transitar entre estilos e cantar com verdade fez dela referência para gerações. Hoje, celebramos não apenas seu aniversário, mas a força de sua música — que segue tocando corações, derrubando fronteiras, lágrimas de saudade e mostrando que, sim, a Divina vive eterna em cada nota bem cantada.





Jeff Soares

Músico

Jornalista

Apresentador do Aqui de Casa Podcast

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