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Crônica: E a Tornozeleira

Os delírios patrióticos do bolsonarismo

Crônica: E a Tornozeleira
Crônica: E a Tornozeleira (Foto: Reprodução)

Agora acordou o gigante, o Brasil, em um sextou de julho, onde um famigerado "mito" que segundo sua patota deveria estar no poder por intervenção divina, militar ou alienígena. Mas, ao invés disso, acordou o povo, o povo fiel que recebeu a revelação, a mais difícil desde o fechamento de igrejas na pandemia: o Messias agora estava monitorado por uma tornozeleira eletrônica.


Ah, que barra! Tadinho! Que tragédia! 


No grupo da família, a tia já gritava em letras garrafais que era “PERSEGUIÇÃO” do Xandão. No Twitter, agora conhecido por "X", bolsonaristas misturavam latim jurídico com emojis de bandeirinha, clamando: “HABEAS CORPUS PRO MITO JÁ 🇧🇷🙏🏼⚖️”. E o mais engraçado? Diziam que a tornozeleira era uma “pulseira de honra”, um sinal de que o Messias estava “carregando a cruz do povo”.


Ah Brasil, toma vergonha na tua cara! 


Alguns seguidores juraram que era só um relógio inteligente importado — “isso aí é Apple Watch de tornozelo, seus ignorantes!”. Outros, mais criativos, afirmavam que a tornozeleira era na verdade um "dispositivo da NASA" para rastrear comunistas. Teve até quem dissesse que ela tinha sido colocada para proteger Bolsonaro de sequestros do STF, que, como sabemos, está sempre a um passo de dominar o país.


Em frente à casa do ex-presidente, patriotas de colete camuflado, óleo ungido, bandeira nas costas e uma fé inabalável, acampavam sob o sol gritando: “Tornozeleira hoje, coroa amanhã!”, outros diziam deram um "morfador" pro "mito". Será que o último grito de guerra dos fiéis será: “Bolsonaro, o mártir de silicone e GPS!”


Enquanto isso, nas profundezas da racionalidade, especialistas em direito tentavam explicar que não, isso não era golpe, nem censura, nem perseguição. Era consequência. Mas isso, claro, foi prontamente rebatido com o clássico argumento bolsonarista: “E o Lula?”


Havia memes, claro. Montagens mostrando Bolsonaro de armadura com a tornozeleira brilhando feito joia do infinito. Havia até quem dissesse que a PF havia instalado o aparelho como forma de espionagem para roubar “os segredos do mito”.


E nas lives, figuras com 0,1% de sanidade e 99,9% de monetização, choravam com fundo musical dramático, dizendo que “o Brasil está de joelhos, mas Deus está de pé!”. Tudo isso porque o ex-capitão, o paladino das fake news, agora estava de tornozeleira e pantufa, tomando café com leite sob medida judicial.


Entre a vergonha e o riso, a crônica se escreve sozinha.


Porque não há nada mais brasileiro, em tempos de delírio coletivo, do que transformar uma tornozeleira eletrônica em símbolo de resistência. O que é a Justiça senão mais um “inimigo do povo de bem”?


E assim seguimos, com um país dividido entre os que acreditam que lei é lei — e os que acham que lei é só mais uma invenção do comunismo para impedir o Messias de voltar montado em um cavalo branco... ou numa motociata em Copacabana.


E a tornozeleira?


Ah, essa já virou relíquia. Em breve, alguma loja online vai vender réplica em 12 vezes sem juros. Porque no Brasil, tudo vira camiseta.


Até a vergonha.





Jeff Soares 


Músico

Jornalista 

Apresentador do Aqui de Casa Podcast 


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