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Pornografia e Mulheres: O Tabu do Desejo Feminino

Se Toca Guria!

Pornografia e Mulheres: O Tabu do Desejo Feminino
Imagem Internet/Unsplash

Esses dias, rolando o feed do Instagram, me deparei com o relato de uma mulher falando abertamente sobre seu vício em pornografia. O vídeo gerou espanto nos internautas (assim como gerou em mim). Como assim, uma mulher viciada em pornografia? (Como se mulher não transasse, gozasse e fosse feliz).


Li, reli e fiquei pensando na potência daquele vídeo que, de primeira, me assustou, mas depois me fez refletir: por que tanto espanto ao ver um vídeo assim? (Às vezes nos pegamos reproduzindo o machismo automaticamente, mesmo sendo pessoas ditas desconstruídas e conscientes). Depois de um tempo, a moça do vídeo me soou como corajosa. A maioria das mulheres tem vergonha de falar sobre masturbação.


E é por isso que escrevo esse texto que vocês estão lendo agora.


O conteúdo daquele vídeo me tocou. Parece bobo, mas me tocou. Não apenas pelo que foi dito, mas pelas reações que provocou. Nos comentários, uma mistura de espanto, julgamento, confissão e solidariedade. Os comentários nas redes sociais são a nova Santa Inquisição.


Foi como abrir a porta de um quarto trancado há anos: a poeira subiu, e deu alergia no clero.


Em pleno 2025, muitas mulheres ainda comentam coisas como: “Só eu não faço isso?” “Só eu acho nojento?” “Só eu sinto vergonha?”


Sim, Márcia. Só tu, alecrim-dourado que nasceu no campo sem ser semeado. Quem dera fosse só ela... Claramente muitas mulheres se identificaram e admitiram que não se masturbam por nojo, e tudo bem não gostar! O problema é gritar para o mundo que o próprio corpo é nojento.


Como tu vai sentir prazer com outra pessoa se tu mesma nunca explorou teus próprios limites? É bizarro!


“Nossa, transei com fulano e foi horrível porque ele não me fez gozar...”

E tu te conhece? Tu aprendeu a chegar lá sozinha? Aprendeu sobre ti mesma pra orientar teu parceiro? Não, amada? Então é impossível jogar essa bomba no colo do outro.


A gente sabe que, para as mulheres, é diferente. Os meninos falam sobre isso entre eles desde cedo. Infelizmente (ou não), têm acesso fácil e instantâneo a conteúdos adultos. Mas e nós, mulheres?


Falamos tanto sobre quebrar estigmas, mas o prazer feminino ainda é visto como algo impuro. Falar sobre pornografia já é difícil. Falar sobre pornografia quando se é mulher, mais ainda. Fomos ensinadas desde cedo que nosso corpo não nos pertence por completo. Ele existe para o outro: para ser usado, observado ou desejado. Mas nunca para ser tocado com liberdade, olhado com afeto.


A masturbação feminina continua sendo um dos maiores tabus da sociedade. Em pleno 2025, ainda existem pessoas que consideram impuro, vergonhoso ou imoral o fato de uma mulher tocar o próprio corpo. O que é natural, instintivo e saudável vira motivo de culpa, silêncio e repressão. E o que é silenciado, muitas vezes, adoece.


Falam muito sobre liberdade sexual, mas poucos estão dispostos a discutir o prazer feminino com seriedade. Existe uma diferença entre libertinagem e liberdade, e essa linha é constantemente distorcida quando o desejo parte da mulher. Quando um homem fala abertamente sobre masturbação, ele é “normal”. Quando uma mulher faz o mesmo, ela é “excessiva”, “descontrolada”, “sem pudor”.


Esse julgamento revela uma verdade incômoda: o prazer feminino ainda assusta. A genitália feminina é muitas vezes vista como suja, indecente, algo a ser escondido. E isso não é coincidência, é controle. Uma mulher que se conhece, que sente prazer, que se permite gozar sem culpa, é uma mulher difícil de manipular. E é por isso que, historicamente, nos ensinaram a não falar, não tocar, não desejar.


O pior é ler outras mulheres dizendo: “Eu não faço isso porque tenho marido.” Nem preciso explicar por que essa fala é problemática, né?


Precisamos normalizar as mulheres amando seus corpos. O prazer feminino não pode ser algo exclusivo dos homens. Nós temos o direito de chegar no ápice sozinhas.


Relatos como o que vi naquele post são janelas abertas em paredes antigas. É preciso coragem para dizer “eu também”, e isso deveria ser a coisa mais comum do mundo. Coragem para falar de vício, sim, mas também de curiosidade, de vontade, de autoconhecimento.


A pornografia pode ser ferramenta, fuga...

Pode abrir caminhos ou te aprisionar em uma fantasia mirabolante.

A discussão sobre seus impactos é válida e necessária.


Que a gente possa falar mais sobre o prazer feminino, sobre amor próprio e autoconhecimento. Que a gente possa se tocar sem medo. Que o prazer feminino deixe de ser um tabu e passe a ser o que sempre foi: parte da vida.


Já parou pra pensar que nossas tataravós, bisavós, avós (e, quando vê, até mães) não tiveram prazer, nunca gozaram e eram apenas a extensão da satisfação sexual masculina? Apenas a ferramenta utilizada pelos homens para chegar ao máximo do prazer.


Elas não se tocavam, não tinham prazer, justamente por ouvirem que era feio ou impróprio.


Nós temos a informação, a liberdade e um corpo que biologicamente te proporciona tudo pra tu ser feliz, mulher.


Antes de entregar teu templo (teu corpo), habitado pelo espírito, ao outro, ele te pertence.

Não é feio sentir prazer.

Não é feio se conhecer.


Se toca, guria!




Tamara Nunes

Jornalismo/UCPel

Poeta, Artesã, Confeiteira

Taróloga e Colunista

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