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Cannabis e Intolerância Religiosa: Quando a Proibição Fere o Sagrado

[...] Quando a lei escolhe qual planta pode ou não ser sagrada, ela não protege – ela oprime.

Cannabis e Intolerância Religiosa: Quando a Proibição Fere o Sagrado
Imagem Internet/Unsplash

Pouca gente sabe, mas a primeira utilidade da cannabis na história humana não foi como remédio ou passatempo. Foi como ponte. Uma ponte entre o mundo material e o espiritual. Povos da Índia usavam o bhang, preparado de cannabis, em rituais para Shiva há milênios. No Nepal, monges a queimavam em cerimônias de purificação. Na África, era considerada planta de sabedoria, usada para conversar com os ancestrais. No Rastafarianismo, “ganja” é sacramento sagrado para meditação, comunhão e oração.


No Brasil, aprendemos a reconhecer o uso ritualístico da ayahuasca como sacramento legítimo. Igrejas como Santo Daime e União do Vegetal têm autorização legal para utilizá-la em seus rituais, pois ficou provado que ela não é “drogadição”, mas caminho espiritual. Contudo, o mesmo não acontece com a cannabis, chamada por alguns grupos de Santa Maria.


Mesmo quando utilizada em contexto de oração, cura espiritual ou comunhão com o divino, a cannabis ainda é criminalizada. E aqui mora uma grande injustiça: a Constituição Federal garante a liberdade de crença e culto e define o Estado como laico – ou seja, não cabe ao Estado escolher quais religiões podem ou não usar seus sacramentos. Porém, ao proibir a Santa Maria, o Estado brasileiro viola esse princípio.


O Supremo Tribunal Federal julgou parcialmente a descriminalização do porte para uso pessoal, mas o uso religioso da cannabis continua sem proteção específica. Movimentos como os supracitados têm batalhado judicialmente pelo direito de exercer seus rituais sem perseguição, mas enfrentam barreiras morais, preconceitos históricos e racismo religioso. Afinal, como lembra o professor Henrique Carneiro, o proibicionismo sempre teve motivações políticas e raciais, não apenas de saúde pública.


Reconhecer a cannabis como sacramento não significa defender o uso recreativo irrestrito, mas respeitar o caráter sagrado que essa planta tem em muitas tradições. Assim como a folha de chacrona e o cipó jagube se tornaram símbolo de liberdade de crença no Brasil, a Santa Maria também pede seu lugar de respeito.


No fundo, essa é uma luta por direitos humanos. Liberdade de crença não é só um artigo bonito na Constituição; é garantir que cada povo possa seguir seus caminhos espirituais, desde que não fira o outro. Quando a lei escolhe qual planta pode ou não ser sagrada, ela não protege – ela oprime.


Se queremos de fato um Brasil laico e justo, precisamos relembrar o princípio mais antigo de todos: cada planta carrega um espírito, e cada povo tem o direito de honrá-lo.





Amanda Beatrice

Taróloga

Colunista

Apresentadora

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