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A “piada” Que Fere: Até Quando?

A ironia de Léo Lins sobre a morte de Preta Gil e a decisão judicial que escancara os limites da liberdade de expressão!

A “piada” Que Fere:  Até Quando?
Montagem/Redes

Em tempos em que o humor encontra terreno fértil para o ódio disfarçado de piada, o nome de Léo Lins volta aos holofotes — mais uma vez, não por sua criatividade, mas pela repetida prática de transformar o sofrimento alheio em espetáculo. Recentemente, o humorista ironizou a morte da cantora Preta Gil, em uma apresentação, sugerindo, em tom de sarcasmo e crueldade.


Léo mencionou durante o show que pessoas que moveram ações judiciais contra ele, “todas se ferraram de alguma forma”. E ao ouvir o nome de Preta Gil ser gritado por parte do público, ele teria completado: “Quem vier me processar vai pegar câncer e morrer.” A fala gerou revolta em parte da opinião pública, mas uma decisão do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS), que rejeitou uma ação movida na cidade de Novo Hamburgo, garantindo a Lins o escudo da chamada “liberdade de expressão”, de certa forma ampara a falta de bom senso do humorista.


O caso expõe, de forma contundente, o atual dilema brasileiro sobre até onde vai o direito de dizer tudo e onde começa o dever de respeitar os limites humanos e éticos. Léo Lins, conhecido por sua insistência em praticar um humor que flerta com o escárnio e o preconceito, celebrou nas redes a decisão como uma vitória da comédia. O TJRS, por sua vez, entendeu que sua apresentação se deu em um ambiente de espetáculo humorístico e que, portanto, não deveria ser censurada, mesmo diante de evidente mau gosto e potencial ofensivo.


Mas a pergunta que não quer calar é: que liberdade é essa que autoriza alguém a brincar com a doença, o corpo, a luta e até a morte de uma mulher negra, artista, como Preta Gil? Em um país marcado por desigualdades históricas, racismo estrutural e violência simbólica, o palco de Léo Lins não é neutro — é um megafone alimentado por um público que muitas vezes compartilha e consome o ódio disfarçado de riso.


A decisão judicial evidencia um padrão preocupante: o Judiciário frequentemente se mostra hesitante ou permissivo quando o ataque se esconde atrás da cortina do humor. No caso em Novo Hamburgo, onde se questionava a realização de seu show na cidade, a Justiça considerou a tentativa de barrar a apresentação como censura prévia. Contudo, o conteúdo do que foi dito em palco revela que não estamos mais diante de um simples debate sobre liberdade artística, mas sim sobre a normalização do discurso de ódio.


Ironizar a morte de Preta Gil não é fazer humor ácido — é zombar da dor de uma mulher que, ao longo de sua trajetória, enfrentou a intolerância religiosa, o racismo, o machismo, a gordofobia e a doença com coragem pública. E ao fazer isso, Léo Lins não está apenas “fazendo piada”; está alimentando um ambiente onde o preconceito é reciclado em aplausos.


Há uma diferença clara entre liberdade de expressão e licença para agredir. O humor pode — e deve — ser provocador, crítico, desafiador. Mas quando se torna uma ferramenta para perpetuar preconceitos e reforçar estigmas, ele deixa de ser arte e se torna violência simbólica. A decisão do TJRS, embora juridicamente embasada, ignora esse aspecto essencial: que a liberdade de um não pode se sobrepor à dignidade do outro.


A vitória de Léo Lins nos tribunais é, portanto, uma derrota moral para quem acredita que a empatia é também um valor constitucional. E se seguimos confundindo humor com humilhação, talvez o problema não seja só o que está sendo dito no palco — mas o que o público está aplaudindo embaixo dele.




Jeff Soares

Músico

Jornalista

Apresentador do Aqui de Casa Podcast

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