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Ozzy Osbourne: A Dualidade do Príncipe das Trevas

[...] Poucos têm coragem de olhar o próprio lado podre e dizer: eu te amo também.

Ozzy Osbourne: A Dualidade do Príncipe das Trevas
Imagem Internet

Ozzy Osbourne morreu. Dia 22 de julho de 2025. É estranho escrever isso. Morreu o homem que parecia que não ia morrer nunca, mesmo depois de já ter morrido tantas vezes por dentro. Morreu o cara que fez o último show sabendo que era o último, mas ainda cantou como se fosse o primeiro. Morreu o príncipe das trevas, o mesmo que nos fez ver que a escuridão não era o fim.


Ele foi a figura que atravessou o rock inteiro. Não só o rock que toca no rádio, mas o rock que existe dentro de cada pessoa que já sentiu vontade de quebrar tudo e não quebrou. Aquela gargalhada que tu solta no meio do caos quando não tem nada mais nada a perder.


Ozzy era a entrada e a saída da loucura. Ele era o portal que a gente atravessa pra chegar no fundo do poço, mas também era a escada de ferro enferrujada que a gente sobe pra voltar. Ele não tinha medo de sentar na mesa com os próprios demônios. Enquanto a maioria de nós se esconde, reza, medita, acende incenso, entoa mantra, toma floral, repete afirmações positivas pra tentar expulsar a dor. Ozzy transmutava. 


Poucos têm coragem de fazer isso. Poucos têm coragem de olhar o próprio lado podre e dizer: eu te amo também.


Osho falava sobre a sombra. Sobre como a gente passa a vida inteira fugindo dela. Tentando ser luz, ser bom, ser puro, ser elevado, ser calmo. Mas ninguém chega no céu sem antes atravessar o inferno. É lá que tá a força vital. O êxtase de existir. É na parte mais suja de ti que mora a tua maior criação. Porque a destruição também é criação. Porque tu não é só amor, paz e gratidão. Tu é caos, ódio, inveja, raiva, vontade de quebrar tudo, tesão que não cabe no corpo, dor que não cabe na garganta.


Ozzy foi o cara que nos lembrou disso. Tem que rasgar a garganta pra cantar a própria dor. Tem que bater cabeça até esquecer o nome. Tem que ter som alto pra calar o barulho de dentro. Ele nos ensinou que às vezes tu não vai sair melhor, mais calmo, mais pleno depois de um caos. Às vezes tu vai sair só vivo. E acredite, isso já é muito.




A importância de artistas como Ozzy existirem é essa. Eles nos lembram que tá tudo bem ter ferida. Tá tudo bem ter sombra. Tá tudo bem ter vontade de destruir. E que, se tu tiver coragem de não fugir, de sentar ali e perguntar pro teu demônio qual música ele quer escrever hoje, talvez tu descubra que ele não queria te matar. Ele só queria cantar contigo.


Porque não basta aceitar que tu tem um lado podre. Não basta olhar pra tua sombra e dizer “ok, tu existe”. A vida não é feita só de aceitação passiva. É feita de CRIAR com tudo isso. De se amar mesmo quando tá fedendo por dentro. De aproveitar a vida mesmo quando teu peito tá cheio de dor, rancor, ódio e cansaço. Porque tu não vai se curar pra depois viver. Tu vai viver enquanto tá doendo mesmo. Enquanto tá sangrando. Enquanto tá podre.


O Ozzy não sobreviveu ao próprio caos só porque aceitou que ele existia. Ele viveu apesar dele. Viveu amando o que era amável, odiando o que era odiável, errando tudo que podia errar, caindo todas as vezes que podia cair, mas levantando pra subir no palco e gritar. Ele viveu porque, mesmo com toda podridão, ele sabia que a vida ainda tinha gosto. E que o gosto não era só de cerveja. Era de música. Era de gente. De abraço apertado. Era de palco, de público, de sentir que existe alguém te ouvindo enquanto tu berra a tua verdade e mais, comungando com ela.


Porque a real é essa: não adianta tu aceitar tua sombra se tu continuar se odiando por tê-la. Não adianta tu saber que tem um lado destrutivo se tu continuar tentando trancar ele no porão. Um dia ele vai arrombar a porta.


Então vive com tudo isso. Com teu lado pecador. Com teu lado santo. Com teus demônios e teus anjos. Com teu medo de morrer e teu medo de viver. Com tua vontade de sumir e tua vontade de ser amado. Porque tudo isso é tu. E tudo isso é vida. E tudo isso é música também.


Aproveita enquanto tu tá aqui. Aproveita tua carne, teus ossos, tua voz, teus olhos que enxergam o mundo. Aproveita tuas lágrimas também. Porque um dia tudo isso acaba. Mas, até lá, tu pode escolher cantar.


Obrigada, Ozzy!


Por ter sido a prova viva de que ninguém é só treva nem só luz.  Por ter me ensinado que é melhor descer no inferno e fazer morada. Botar uns tapetes, umas velas pretas, pendurar uns quadros tortos na parede úmida e chamar meus demônios pra jantar. Melhor do que ter fugido pra sempre.


Obrigada por me lembrar que viver é cair na lama, se cobrir de vômito, de sangue, de lágrimas, mas levantar com cheiro de podre e mesmo assim subir no palco da própria vida.


E cantar. Cantar, cantar e cantar.




Amanda Beatrice

Taróloga

Colunista

Apresentadora

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