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Heróis Sem Poderes: Entre os Escombros de Gaza, As Ruas da Filadélfia e os Muros do Brasil

A Humanidade em Estado Bruto

Heróis Sem Poderes: Entre os Escombros de Gaza, As Ruas da Filadélfia e os Muros do Brasil
Heróis Sem Poderes: Entre os Escombros de Gaza, As Ruas da Filadélfia e os Muros do Brasil (Foto: Reprodução)

Em tempos de guerra e desigualdade, o heroísmo real não veste armadura de ferro nem voa por entre arranha-céus. Ele caminha descalço entre escombros, pula muros em comunidades pobres e encontra no uniforme de um super herói uma tentativa de escapar — ou resistir — a uma realidade que insiste em ser cruel demais para tão pouca idade. Meninos, em cantos distintos do mundo, nos lembram do que realmente significa ser herói: coragem em meio ao abandono.


O MENINO DE GAZA: SOB OS ESCOMBROS, UM HERÓI USA CAPA

Uma fotografia circulou o mundo nos últimos meses: um menino palestino, de não mais que 6 ou 7 anos, caminha entre ruínas e poeira nas ruas devastadas da Faixa de Gaza. Entre explosões, casas reduzidas a pó e o silêncio mórbido que segue o barulho das bombas, ele carrega em si um símbolo de resistência infantil: veste uma capa do Super-Homem.


Não há brinquedos, não há escola, não há segurança. Mas há uma capa. E isso parece bastar para que aquele corpo miúdo ouse caminhar como quem desafia o inimigo. É um gesto simples, quase invisível aos olhos de quem banaliza a dor palestina, mas profundamente potente: em meio ao inferno, o menino se fantasia de esperança.




O MENINO DA FILADÉLFIA: UM HERÓI DE CAPA SALVA GATOS E SONHOS

Do outro lado do mundo, nos Estados Unidos, Shon ou “Catman” um menino negro hoje com 12 anos ganhou os noticiários anos atrás por outro tipo de heroísmo. Vestido com o uniforme do Super-Homem, ele percorre as ruas da cidade em busca de gatos abandonados. Ele e sua família resgatam, alimentam, dão nome e carinho aos animais. Diz que “os bichinhos precisam de ajuda” e que, enquanto usar o uniforme, pode fazer qualquer coisa. Até voar — mesmo que só com a imaginação. Shon não vive em uma zona de guerra, mas é alvo do preconceito racial. Sua “missão” é simples, mas cheia de humanidade: salvar quem também não tem voz.




OS MENINOS NEGROS DO BRASIL: A RESISTÊNCIA DOS HERÓIS SEM CAPA

Aqui no Brasil, milhares de meninos passam fome, eles vivem em uma zona de guerra civil, onde a bala, principalmente a da Polícia, costuma escolher um corpo negro. Eles são sobreviventes do tráfico e das milícias, são as vítimas mais afetadas pelo racismo estrutural e a invisibilidade social. Os que sobrevivem, são os heróis sem capa. São eles que carregam sonhos e derrotam um monstro por dia.




QUANDO A RESISTÊNCIA VESTE A DOR

O que une esses pequenos heróis é a forma como o imaginário do herói serve de escudo para enfrentar realidades muito maiores do que eles. Ambos vivem em territórios onde o Estado é ausente, onde o futuro é um conceito frágil e onde a infância é atropelada pela urgência da sobrevivência. E, ainda assim, ambos acreditam em algo maior. Algo que os faz seguir em frente. De fantasia, ou, não — são resistência.


Em Gaza, é um grito mudo contra a ocupação e a destruição. Nos EUA, é uma forma de construir um mundo mais justo, pelo menos para os gatos. No Brasil é urgência por justiça e direitos humanos.


Enquanto homens de terno e gravata acreditam que são os donos do mundo, esses meninos nos mostram o verdadeiro heroísmo: aquele que nasce da empatia, da imaginação e da recusa em ser reduzido pelas circunstâncias. Eles não têm superpoderes. Mas têm algo mais raro: humanidade em estado bruto. Talvez, um dia, o mundo mereça esses heróis. Até lá, que eles continuem voando — mesmo que só dentro da própria cabeça. Porque, às vezes, imaginar já é resistir. E resistir é, por si só, um ato de coragem.





Jeff Soares

Músico

Jornalista

Apresentador do Aqui de Casa Podcast

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