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Refém das Nuvens Artificiais

[...] já parou pra pensar que, apesar disso, somos também a geração do backup?

Refém das Nuvens Artificiais
Arquivo Pessoal

A gente vive acreditando que é a geração que mais tem registro da própria vida. E, de certa forma, é verdade. Nunca foi tão fácil registrar tudo o que acontece ao nosso redor. Um celular no bolso, um clique rápido, e pronto: tá lá guardado. O café bonito que tu tomou ontem, o pôr do sol daquela viagem, o sorriso de quem tu ama, a bagunça das crianças pela casa. Tudo cabe na palma da tua mão. Tudo fácil, tudo descartável.


Mas tu já parou pra pensar que, apesar disso, somos também a geração do backup? Não dos álbuns. A gente tira milhares de fotos e deixa elas perdidas na galeria, em pastas que ninguém nunca abre. Salva no Google Fotos, no Drive, num HD externo. Tudo pra “não perder”. Mas já parou pra pensar que, se amanhã ou depois o celular estragar e tu não tiver backup, tu perde tudo? 


É muito fácil hoje entrar na galeria, rolar até 2021 e ver aquele dia que tu achava que ia esquecer. Mas e se um dia tu não tiver mais essa galeria? As fotos que tu não revela, simplesmente somem. Elas deixam de existir no mundo real e se apagam como se nunca tivessem sido tiradas. Uma vida inteira esquecida.




No México, no Dia de Los Muertos, eles montam altares com retratos dos mortos. Colocam a foto junto com as coisas que aquela pessoa gostava em vida — pão, tequila, chocolate, flores, cigarros, brinquedos. Fazem isso porque acreditam que, sem o retrato, o morto não consegue atravessar de lá pra cá pra visitar quem ficou. É como no filme Viva – A Vida é Uma Festa. O menino Miguel descobre que, se ninguém coloca tua foto no altar, tu desaparece de vez. Some até do outro lado. É assim também com a vida real: se tu não revela foto, nem teus mortos conseguem te visitar, nem teus vivos vão saber que tu existiu.


Antigamente, as pessoas revelavam fotos. Faziam álbuns de família, guardavam nas caixas de sapato, escreviam datas e nomes atrás de cada foto pra ninguém esquecer quem era aquele bebê bochechudo ou aquela tia sorridente de vestido florido. Hoje, se alguém quisesse ver a tua vida, teria que conseguir a senha do teu celular. E isso se tu ainda tiver o aparelho. Se não tiver, não tem vida nenhuma pra olhar. 




Guardar memória não é só tirar foto. É dar valor real pra ela. É escolher revelar aquele sorriso espontâneo, aquele abraço que te faz sentir amado, aquela foto torta que ninguém queria postar, mas que mostra exatamente como era o momento. Porque memória não precisa de filtro nem legenda bonita. Memória precisa existir fora do digital. Precisa ter cheiro de mofo, precisa amarelar com o tempo, precisa ocupar espaço na gaveta.




Quando a gente revela foto, a gente eterniza um pedaço da vida no papel. É esse papel que um dia teus filhos vão encontrar numa gaveta e vão sorrir. É esse álbum que teus netos vão folhear e perguntar quem era quem. É essa foto solta no meio de um livro que vai fazer alguém te lembrar com saudade. Porque se não existir fora do celular, nem saudade vão poder sentir de ti.


Se um dia tudo acabar, se um dia não existir mais nuvem, Google, celular, se um dia faltar energia ou a tecnologia mudar tanto que teus arquivos fiquem obsoletos, o que vai restar? As fotos reveladas. O álbum de família. Aquela foto 10x15 meio amarelada, mas que guarda vida dentro dela. Vida suja, torta, real.


Porque registrar a vida é fácil. Difícil é não deixar ela se perder. Então revela tuas fotos. Nem que seja algumas. Nem que seja uma por mês, uma por ano. Mas revela. Coloca na parede, no porta-retrato, no álbum, na carteira. Faz tuas memórias existirem fora da tela. Porque um dia, quando tu não estiver mais aqui, o que vai contar tua história não vai ser a porra do teu celular esquecido numa gaveta. Vai ser a foto manchada de café, guardada embaixo de um livro qualquer, provando que tu existiu de verdade.




Amanda Beatrice

Taróloga

Apresentadora

Colunista

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