Quando Se Quebra o Espelho, Se Sente o Rosto
[...] A paz que vem de parar de mentir pra si mesma.
Eu ouvi uma frase de um influencer chamado Pedro (@tintimpedro) que me abriu uma cratera na cabeça: “Você nunca vai conseguir se amar enquanto estiver fingindo que sente algo e escondendo o que realmente sente.”
Essa frase me pegou porque, principalmente sendo mulher, eu fui ensinada a performar. A performar sentimentos, a fingir sensações, a simular um orgasmo, a sorrir quando queria gritar. E na maternidade isso se repetiu. Esperavam que eu vivesse a maternidade do Miguel com uma tristeza permanente. Esperavam que eu fosse uma mulher arrasada, destruída, carregando dor o tempo todo — porque era isso que, aparentemente, significava amar.
E eu fingia. Fingia tristeza, fingia incompreensão. Porque, no fundo, eu achava que era isso que minha família esperava de mim. E se eu não estivesse chorando aos prantos, será que eu realmente amava meu filho? Se eu mostrasse leveza, será que estariam me julgando por seguir viva?
Quando ele morreu, eu entrei nas fases do luto. Às vezes, sim, sou tomada por uma tristeza funda, que me atravessa. Mas também passa. Como tudo. Eu sempre fui muito consciente. Desde 2022 venho num processo profundo de autoconhecimento. Me comprometi comigo mesma a me olhar de verdade — luzes e sombras — pra poder me integrar. Pra parar de viver sob o olhar dos outros.
E agora, com a Maria, a vida me traz de novo essa oportunidade de não performar. De ser inteira, e não uma personagem de mãe perfeita. Eu não sou só amor. Eu também sinto raiva, cansaço, impaciência. E é tudo isso que me torna real. Eu não escondo mais. Não finjo ser um ser de luz iluminado que nunca sente ódio. Eu honro meus sentimentos. Todos. Porque sou um ser humano com sentimentos humanos. E minha evolução não depende de parecer evoluída — mas de ser sincera comigo mesma.
Antes, muitos dos meus atos eram para os outros. Eu queria que me vissem como boa, como sábia, como forte. Mas, ironicamente, nessa tentativa de ser vista, eu me perdi de mim. Só que, como diz Chico Science:
"Caminho se conhece andando
Então vez em quando é bom se perder
Perdido fica perguntando
Vai só procurando
E acha sem saber."
Tudo isso faz parte. São erros que eu não cometo mais. São personagens que eu não visto mais. Porque agora eu faço o esforço por mim — e não pra plateia.
E essa é a grande virada. Quando o que tu faz deixa de ser sobre como os outros vão te olhar e passa a ser sobre como tu mesma quer se encontrar.
No Dhammapada, um dos textos mais antigos do budismo, está escrito:
“Mais do que mil palavras sem sentido, vale uma única palavra que traz paz.”
Essa é a palavra que fica: paz. Mas não a paz fingida, encenada, performada. A paz que vem de parar de mentir pra si mesma. Que vem quando tu te permite sentir tudo — sem filtro, sem vergonha, sem medo de ser julgada. A paz que vem quando tu decide que o teu amor-próprio começa onde termina a mentira.
Amanda Beatrice

Taróloga
Colunista
Apresentadora
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