Quando o Racismo se Esconde nos Livros Infantis
Uma análise sobre Monteiro Lobato e o seu preconceito explícito.
Como pode o povo de um país inteiro dizer que não são racistas, se até na infância foram ensinados a rir do preconceito? E o pior, riram e perpetuaram esse crime.
Durante muito tempo, Monteiro Lobato foi celebrado como o grande nome da literatura infantil brasileira. Ganhou estátua, nome de biblioteca, selo nos Correios, série na televisão. Virou símbolo de inteligência, imaginação e cultura nacional. Mas só mais recentemente começamos a encarar com mais honestidade uma parte da sua obra que foi sistematicamente ignorada: o racismo presente em suas palavras, ideias e personagens.
Ler Monteiro Lobato com olhos adultos e atentos é perceber que o riso que ele provocava em gerações de leitores também carregava dor. Tia Nastácia, uma das personagens mais marcantes de sua obra, era frequentemente tratada com expressões desumanizantes, chamada de “macaca de carvão”, ridicularizada em situações que reforçavam a ideia da inferioridade da mulher negra, mesmo sendo ela quem sustentava a casa com seu trabalho e sabedoria ancestral.
Durante décadas, isso foi considerado “normal”. Afinal, como diziam, “era outro tempo”. Mas que tempo é esse, em que o racismo era aceito como ferramenta educativa? Por que crescemos ouvindo que Lobato era um gênio, mas nunca que ele também era um homem que defendia ideais eugenistas e chegou a escrever cartas exaltando teorias racistas?
A resposta está na própria estrutura da nossa sociedade: um país que aboliu a escravidão há menos de 200 anos. Isso é ontem, historicamente falando. Nossos bisavós viveram isso. As marcas estão vivas: nos nomes das ruas, nos cargos de poder, nos presídios superlotados de gente preta e pobre, e sim, nos livros escolares, nas histórias infantis, nas brincadeiras “inocentes”.

E também nas telas da televisão!
Até bem pouco tempo atrás, os poucos papéis oferecidos a pessoas negras na teledramaturgia brasileira eram os de escrava, empregada, ou a amante hipersexualizada. Estereótipos que se repetiam como se fossem regras não ditas, um spin off da colonização que naturalizou a posição de subalternidade para o corpo negro.
É só agora, em pleno 2025, que começamos a ver mulheres negras de pele escura, com independência, autenticidade e identidade sendo protagonistas do horário nobre da maior emissora do país. Mulheres bem resolvidas, complexas, reais. Isso deveria ser básico. Mas no Brasil, é histórico. E essa demora não é acaso, é reflexo direto de um país que insiste em dizer que não é racista, ao mesmo tempo em que impede que pessoas negras ocupem o centro da cena, do poder e da narrativa.
A gente cresceu achando que racismo era uma atitude extrema, cometida por gente cruel, violenta, distante. Mas o racismo está em lugares muito mais próximos. Às vezes, vem da professora que corrige a fala da criança preta com desdém. Da mãe do coleguinha que torce o nariz na hora de convidar pro aniversário. Do segurança que segue de perto no mercado. Do olhar atravessado no pátio da escola. Do diretor que só elogia cabelo “comportado”.
O racismo muitas vezes não grita. Ele sussurra. E justamente por isso é tão difícil de identificar, ainda mais quando fomos educados por ele. Vivemos em um país em que a maioria da população é negra, mas a maioria das oportunidades, dos aplausos e dos retratos nas paredes continuam nas mãos da branquitude. A conta não fecha.

Monteiro Lobato é só um espelho. Um reflexo claro do Brasil profundo, que ainda tem dificuldade de olhar pra si com coragem. Mas se queremos uma infância mais justa, precisamos contar a história por inteiro. Não se trata de apagar sua obra, mas de contextualizá-la. E mais do que isso: abrir espaço para que novas vozes possam contar outras histórias, com outras personagens, outros finais, outros começos possíveis.
Porque as crianças negras deste país merecem crescer sem serem chamadas de “macacas” nas páginas dos livros. Merecem se ver como protagonistas, cientistas, aventureiras, sábias. E todas as crianças, negras e não negras, merecem aprender desde cedo que o racismo não é invenção. É estrutura. E precisa ser enfrentado com educação, com responsabilidade e com verdade.
Que a gente tenha coragem de reler tudo o que nos ensinaram , inclusive os clássicos, com os olhos de hoje e o compromisso com um amanhã mais justo.
Tamara Nunes

Jornalismo/UCPel Poeta, Artesã,
Confeiteira Taróloga e Colunista
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