Igor Cabral e a Certeza da Impunidade Que Encorajou 61 Socos
Juliana sobreviveu. E agora? O que faremos a partir disso?
Juliana Garcia poderia estar morta. Mas sobreviveu. Com o rosto desfigurado, fraturas no maxilar, sangrando — depois de apanhar covardemente do então namorado, Igor Eduardo Pereira Cabral, dentro de um elevador em Natal (RN), no dia 26 de julho de 2025. O vídeo mostra o horror: 61 socos em sequência. Sessenta e um. Na cara. Sem pausa. Sem misericórdia.
Igor foi preso em flagrante e teve a prisão convertida em preventiva por tentativa de feminicídio. Mas a violência começou muito antes daquele elevador.
Porque a violência contra a mulher não começa com o soco. Começa com o "essa roupa tá muito curta". Com o "não gosto das tuas amigas". Com a senha do celular exigida. Com o “tu é louca, tá inventando coisa”, depois de uma traição. Com o “não gosto que tu saia sem mim”. Com o ciúmes justificado como prova de amor. Com o grito. Com o tratamento de silêncio. Com a vigilância. Com o medo.
É assim que funciona: primeiro ele isola, enfraquece, controla. Depois ele bate.
O agressor alegou "surto claustrofóbico" e ciúmes para justificar o que fez. Claustrofobia agora causa feminicídio? Que tipo de doença é essa que só se manifesta contra mulheres? Que tipo de justiça aceita esse delírio como argumento?

O Agressor
A pergunta que precisamos fazer — com raiva, com urgência e com vergonha — é: a que ponto chegamos? Em que momento da história um homem acreditou que podia esmurrar uma mulher 61 vezes e talvez sair impune? Quantas morreram antes de Juliana? Quantas estão morrendo agora?
E a sociedade segue falhando. A polícia falha. A Justiça falha. O Estado falha. A mídia muitas vezes falha, chamando de "caso de amor que terminou mal". A família falha quando diz “ele é bom rapaz, só perdeu a cabeça”. Os amigos falham quando dizem “isso é coisa de casal, ninguém se mete”. E as mulheres continuam apanhando, sendo silenciadas, desacreditadas, assassinadas.
A sociedade precisa agir. As prefeituras têm obrigação de criar políticas públicas permanentes, não apenas em março. As empresas precisam oferecer palestras, apoio psicológico, canais seguros de denúncia às suas colaboradoras. As escolas precisam ensinar sobre consentimento, respeito, liberdade. As comunidades têm que proteger as suas. E o Estado tem que manter presos esses malditos.
Juliana não é exceção. Ela é o retrato do que pode acontecer quando ignoramos os sinais. Quando deixamos uma mulher pedir socorro e dizemos que é exagero. Quando aceitamos que um homem diga “ela me provocou”. Quando permitimos que agressores passem pano entre si nos grupos de WhatsApp.
Chega. Basta.
Que esse desgraçado apodreça na cadeia. Mas que isso não nos satisfaça. Que a prisão dele seja só o começo da revolta. Que a indignação se transforme em movimento. Em rede. Em política. Em proteção real.
Porque amanhã, pode ser a tua irmã. A tua amiga. A tua filha. Pode ser tu, mulher.
Juliana sobreviveu. E agora? O que faremos a partir disso?
Amanda Beatrice

Taróloga
Colunista
Apresentadora
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