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Crônica: A Vida (a minha) Depois dos 40

[...] Entre dores, resfriados e músicas...

Crônica: A Vida (a minha) Depois dos 40
Arquivo Pessoal

“Você já em chegar, numa boa aos quarenta, porque você não tenta, porque não experimenta…” Elefante Branco - Tigres de Bengala


Toda vez que ouço essa música dos Tigres de Bengala, no auge dos meus quarenta e um, quase quarenta e dois, percebo que o meu corpo já não é mais território firme, tornei um mapa de avisos, regiões interditadas e dores sem explicação. Há manhas que acordo com a coluna travada, como se tivesse carregado o mundo nas costas durante a madrugada. Outras, o joelho reclama ao descer as escadas, lembrando-me que o tempo não fornece recibo, mas cobra tudo com juros. E como pano de fundo, uma sucessão de resfriados que vão e vem, anunciando-se no espelho com os olhos fundos, olheiras, fora a tosse, as narinas entupidas e o frio, muito frio.


É meus caros, estou ficando velho, ‘um coroa’ meio hipocondríaco, daqueles que tem um comprimido pra tudo, menos para as dores de amor, essas só tempo cura. Depois dos quarenta, uma vida baseada em torsilax, sorinan e maca peruana. Chá de camomila com biscoitos de milho ou amanteigados. Buscando sempre lugares para sentar e de preferência pouco barulhentos.


No entanto, em casa insisto em amanhecer com música. Uma velha canção Rock n’ Roll ou uma da MPB com seu chiado de vinil riscado. Gosto disso — aquele som imperfeito, como se alguém respirasse dentro das canções. Às vezes, coloco um bolero para tocar e deixar que a melodia invada a cozinha junto com o cheiro do café. Sento à mesa, bebo devagar, e, por alguns minutos, esqueço o peso dos anos e os problemas.


Já trabalhando, com o clássico mau humor matinal de um capricorniano, ainda sou mais o risonho do grupo. Dou gargalhadas abrindo espaço no ar, quebrando silêncios constrangidos, mas principalmente rindo de mim mesmo. Mas, ao voltar para mim, o riso fica no corredor, junto com os sapatos. Lá dentro, o que há e uma solidão que não se anuncia com tristeza explícita — era mais como um frio leve, mas constante, que não se aquece com cobertas.


Já tentei preencher o espaço. Conversas em aplicativos, encontros às cegas, e até aquelas coincidências — como frequentar lugares diferentes todo dia, na esperança de cruzar com alguém que me faça sorrir comprando pão às sete e quinze. Mas o amor, quando não quer, quando está de birra comigo, nada floresce.

À noite, apresento um programa de rádio e troco com muitas pessoas, algumas no mesmo estágio que eu. Leio muito. Ouço mais música. Faço descobertas de livros e discos que são companhias que não pedem nada em troca. Mas, mesmo assim, há horas em que o silêncio é tão grande que o som por mais pesado que seja não consegue ecoar. Nessas horas, volto a pensar, mudo, coloco um samba antigo ou uma bossa lenta, e deixo que a música preencha os vazios.


O que busco não é mais uma paixão arrebatadora como antes. Já não preciso de fogos de artifício nem de promessas eternas. Queria alguém para dividir um café numa manhã fria, alguém para comentar o final de um filme, alguém para sorrir diante de uma lembrança boba. E, se possível, alguém que também tivesse um ou dois joelhos que reclamassem — para que entendêssemos juntos que o tempo não é inimigo, mas apenas um viajante exigente.


Enquanto esse alguém não chega, sigo. Entre dores, resfriados e músicas, aprendo que a vida, depois dos quarenta, é feita de pequenas resistências. E que, às vezes, a maior de todas é simplesmente continuar esperando, com paciência e um disco na vitrola, pelo amor que virá no seu próprio tempo.





Jeff Soares

Músico

Jornalista

Apresentador do Aqui de Casa Podcast e MPB Café

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