Crônica: Quando Um Homem Não Quer Transar No Primeiro Encontro
Os silêncios são constrangedores!
Não sei em que momento às pessoas decidiram que um encontro só vale se terminar na cama. Talvez tenha sido nas conversas de bar, nos filmes americanos que assistimos quando éramos adolescentes ou na pressão silenciosa que paira no ar quando a conta chega e a noite ainda parece promissora.
Na minha caminhada em busca de conexões, conheci mulheres incríveis. Inteligentes, com riso fácil, olhares hipnotizantes, que conversavam sobre tudo: música, política, viagens que não fizemos. A sintonia fina estava ali, pulsando. Mas quando o assunto parecia querer se transformar em pele, minha postura foi: “Prefiro esperar um pouco.”
Foi como se eu tivesse falado em outra língua. Recebi sorrisos sem graça, como se não soubessem se estavam sendo rejeitadas ou se haviam acabado de encontrar um ser de outro planeta (sim, ás vezes, me sinto um E.T). Senti em seus olhos o questionamento mudo: “Estranho… como assim você não quer?”. Para algumas mulheres, a recusa pode tocar em uma insegurança pessoal: “Será que ele não me achou atraente?”. Isso acontece porque, em um encontro, a validação do desejo do outro é vista como sinal de conquista. Quando essa validação não vem na forma esperada, surge a sensação de rejeição.
A verdade é simples, mas nem sempre compreendida: não era falta de desejo. Era justamente o contrário. Gostei tanto que queria prolongar a curiosidade, deixar a faísca acender sem pressa, não apagar o mistério em uma única madrugada, queria me aprofundar, ter a intimidade necessária para tornar aquilo único. Mas percebi que, para algumas mulheres, quando um homem não quer transar no primeiro encontro, algo parece errado. Como se a masculinidade viesse com prazo de validade, como se um não agora fosse igual a um “não quero você”. E, o fato de que, geralmente essa relação não vai para frente depois desse “não”.
Volto pra casa, pensando nisso. No quanto crescemos acreditando que homens sempre querem o sexo, que às mulheres precisam “dar” no primeiro encontro, que encontros seguem um roteiro engessado. E quando alguém resolve mudar o script, a cena vira incômoda. Eu, de cá, sigo acreditando que desejo também sabe esperar. Que tem coisa mais sedutora do que deixar a vontade amadurecer. Talvez estranho mesmo seja acreditar que intimidade só vale se tiver pressa. Talvez estranho seja eu e essas malfadas relações líquidas.
Jeff Soares

Músico
Jornalista
Apresentador do Aqui de Casa Podcast e MPB Café
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