A Goumertização do Simples
O Que Havaianas, Brechó, Crocs, All Star, & Açaí têm em comum?
A gourmetização de coisas que foram criadas inicialmente pelos pobres, mas que foram aprimoradas pela elite, e agora estão quase inacessíveis à mesma classe que, a princípio, utilizava deles como refúgio, forma de gastar menos dinheiro.
Nos últimos anos, assistimos a um fenômeno curioso, mas nada inédito: a apropriação e a transformação de símbolos populares em mercadorias de luxo. Elementos que surgiram como resposta à precariedade ou como alternativas mais baratas, acabam se tornando tendência nas mãos da elite, inflacionando preços e excluindo justamente aqueles que deram origem a tais práticas e consumos.
As Havaianas, por exemplo, nasceram em 1962, inspiradas em sandálias japonesas feitas de palha de arroz, e por décadas foram vistas como o “chinelo de pobre”(aquela azul/preto e branco, lembra?). Nos anos 1990, campanhas publicitárias com celebridades ressignificaram o produto, e hoje um simples par pode ultrapassar facilmente os R$ 200 em versões “premium”. Aquilo que era sinônimo de simplicidade virou acessório fashionista.

O mesmo ocorreu com os brechós. Até pouco tempo, eram espaços de necessidade: roupas usadas eram doadas ou revendidas a preços baixos, circulando entre as classes populares. Hoje, porém, o chamado “brechó de grife” vende peças usadas por valores superiores aos de roupas novas. A lógica sustentável se mistura ao marketing da exclusividade, deixando de fora justamente quem dependia desses espaços para se vestir com dignidade.
Esses dias mesmo vi uma entrevista com a Frances Bean Cobain, filha do Kurt Cobain falando que o pai dela, não usava roupas de segunda mão por ser tendência, mas sim porque era a única opção que ele tinha diante da condição financeira dele e de sua família.
Enquanto hoje os jovens pagam R$400,00 reais em uma jaqueta de brechó pra ser "vintage".
Quer outro exemplo desses? Os Crocs, que surgiram nos anos 2000 como calçado barato, confortável e até considerado “brega”, viraram item de status após colaborações com marcas como Balenciaga, chegando a custar mais de R$ 3 mil em algumas versões. O mesmo se pode dizer do All Star, criado em 1917 e associado, durante muito tempo, às periferias, aos roqueiros e aos jovens alternativos. Hoje, existem coleções de luxo que ultrapassam a casa dos milhares de reais, distantes da ideia de calçado popular.

O caso do açaí talvez seja um dos mais emblemáticos. Originário da cultura alimentar indígena amazônica, era consumido de forma simples, batido com farinha e peixe. No entanto, ao ser incorporado ao mercado fitness e ao estilo de vida urbano, o preço disparou. Em muitas cidades brasileiras, uma tigela com frutas e granola pode custar mais do que uma refeição completa, um contraste doloroso, se lembrarmos que em regiões ribeirinhas o açaí é alimento básico de subsistência.
Esse processo tem nome: GOURMETIZAÇÃO!
A palavra, que se popularizou nos últimos anos, não se refere apenas a uma sofisticação culinária, mas a um mecanismo social de apropriação. A elite transforma práticas de sobrevivência em tendências de consumo. O resultado é a exclusão da população pobre, que se vê sem condições de ter acesso a algo que ela mesma criou, reinventou e sustentou culturalmente.
Historicamente, esse movimento não é novidade. Desde a feijoada, prato que nasceu das sobras da senzala e foi elevado à condição de “símbolo nacional” nos salões da elite carioca do século XIX, até o samba, marginalizado por décadas e depois legitimado como “alta cultura”, a lógica se repete. O que antes era estigma, vira sofisticação.
O que se perde, nesse caminho, é a memória de resistência embutida em cada prática popular. Não é apenas sobre chinelos, roupas, calçados ou alimentos: é sobre a cultura de um povo que transforma precariedade em criatividade, e que vê, mais uma vez, sua inventividade ser apropriada e usada contra si.
Ao final, resta a pergunta: até quando o que é do povo continuará a ser arrancado dele, transformado em luxo, e devolvido com um preço que já não pode pagar?
Tamara Nunes

Jornalismo/UCPel Poeta, Artesã,
Confeiteira Taróloga e Colunista
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