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Mulheres Negras Sofrem Até na Ficção

A Falta de Narrativas Para Protagonistas Negros Escancara Uma Realidade Brasileira

Mulheres Negras Sofrem Até na Ficção
Taís Araújo - Reprodução/Instagram

Vale Tudo? O tão aguardado remake de uma das maiores novelas da teledramaturgia brasileira, não prendeu boa parte do público em frente a TV e até mesmo no streaming, as mudanças do texto original de Gilberto Braga com adaptações feitas pela autora do remake Manuela Dias, literalmente não agradam o público.


Em uma reviravolta inédita no remake da novela Vale Tudo (2025), Raquel Acioli, personagem de Taís Araújo, enfrenta uma dura queda: perdendo seu negócio após sofrer um golpe da sócia Celina, com apoio da vilã Odete Roitman, e se vê à beira da falência. Forçada a recomeçar, ela retorna à praia vendendo seus famosos sanduíches — um símbolo de resistência, mas também de humilhação. Ao retratar uma mulher negra protagonista sofrendo um retrocesso dramático, a novela escancarou a falta de narrativas mais sólidas de sucesso contínuo para mulheres negras.


A Raquel de Taís, foi construída como uma personagem íntegra, batalhadora e emblemática: uma mulher negra protagonista, vinda de origem humilde, que ascende por mérito próprio e representa uma nova narrativa de força e dignidade. A queda de Raquel, portanto, causou espanto e desconforto — especialmente porque muitos esperavam vê-la consolidada, inspirando a ascensão social, não regredindo ao ponto de partida. Na versão original, Raquel interpretada por Regina Duarte apenas ascendia, ficando cada vez mais poderosa e rica.


Há um sentimento compartilhado de revolta entre telespectadores, principalmente das Mulheres Negras que estão ali representadas por Taís Araújo. O retorno à pobreza é visto como uma narrativa cruel, que reforça estereótipos exaustos das mulheres negras — apenas valorizadas em condição de luta, mulheres que enfrentam barreiras estruturais muito além da ficção.



Manuela Dias x Taís Araújo


Taís Araújo, recentemente em entrevista a revista Quem, expressou tristeza e frustração com o destino narrativo de Raquel. Segundo ela, esperava que a personagem seguisse em curva ascendente, construindo sua trajetória original de sucesso e empoderamento. Ela também destacou a conexão com o público negro, que ansiava por vê-la brilhar em vez de sucumbir novamente. Também deixou claro que não tem o poder da caneta na mão, e que fará a personagem até o fim com muita dignidade.


Para muitos fãs, Raquel representa não apenas uma personagem de novela, mas uma bandeira: a luta por representatividade negra em posição de poder, com ética, competência e reconhecimento. Vê-la novamente na areia, carregando isopor, foi doloroso porque reflete a dificuldade de sustentar narrativas de sucesso prolongado para pessoas negras na ficção e, por extensão, na sociedade. As decisões da autora Manuela Dias, neste caso, foram muito prejudicais.


A volta de Raquel à pobreza, é mais do que um recomeço narrativo — é um dilema simbólico. Ele abre espaço para discutir como representamos à luta, o sucesso e o sofrimento de protagonismos negros. A resistência de Raquel emociona, mas o desejo coletivo era de vê-la não apenas resistir, mas prosperar, permanentemente.





Jeff Soares

Músico

Jornalista

Apresentador do Aqui de Casa Podcast e MPB Café

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