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O Padrão do Sexo Violento: Herança, Cultura e Desejo

[...] sem consenso, o que resta é opressão.

O Padrão do Sexo Violento: Herança, Cultura e Desejo
Imagem Internet/Unsplash

Sempre me pergunto de onde nasceu essa associação entre sexo e violência, esse padrão que insiste em atravessar o desejo e moldar corpos como se fossem apenas territórios de poder. Não acredito que tenha surgido de um acaso ou de um impulso natural; vejo nele uma herança profunda, tecida pela história, pelo patriarcado, pela religião e pela cultura. Como disse Simone de Beauvoir, “não se nasce mulher, torna-se”, e nesse tornar-se feminino, tantas vezes, fomos educadas a ser submissas, dóceis, objeto de posse. O sexo violento é, em grande parte, consequência desse destino imposto.


Por séculos, o corpo feminino foi tratado como propriedade, como se fosse terra conquistada pela força. Nos mitos, na literatura clássica, nos registros da história, o ato sexual aparecia descrito como invasão, tomada, violação. Esse olhar moldou imaginários: ao homem cabia dominar, à mulher cabia se render.


A moral religiosa reforçou esse enredo. O desejo, especialmente o feminino, foi transformado em pecado, e a culpa se tornou o filtro por onde passava o prazer. É curioso, mas a repressão não extinguiu o desejo, apenas o deslocou. O que era proibido, escondido, ilícito, começou a ser erotizado. Assim, a violência ganhou contornos de transgressão. E o que deveria ser liberdade virou segredo, sombra.


A pornografia moderna, no século XX, deu corpo e imagem a esse imaginário. O sexo violento se transformou em espetáculo. As cenas de dominação e humilhação repetidas até a exaustão passaram a educar silenciosamente gerações sobre o que significa prazer. O consumo em massa moldou o olhar, e muitos reproduziram esses roteiros sem sequer questionar de onde vieram.


Mas existe também uma camada psicológica que não podemos negar. O corpo humano responde ao medo e à dor com descargas químicas que, em certos contextos, podem ser excitantes. Adrenalina e endorfina se misturam, e o risco vira desejo. É nesse ponto que práticas consensuais como o BDSM se diferenciam: ali, a violência é encenada, negociada, desejada. A linha, porém, é nítida: sem consenso, o que resta é opressão.


E ainda assim, quando penso nesse padrão, não consigo esquecer que vivemos em sociedades marcadas pela desigualdade e pela violência de gênero. O erotismo, inevitavelmente, reflete essa ferida. Muitas vezes, o sexo violento não nasce de uma escolha autêntica, mas da repetição de uma cultura que normaliza a agressividade masculina e o corpo feminino como objeto de uso. Simone de Beauvoir nos lembrava que a mulher sempre foi colocada como “o outro”, como alteridade em relação ao homem. No campo da sexualidade, essa condição se expressa quando o prazer feminino é secundário e o ato é pautado pela força, pelo domínio, pela marca de quem detém o poder.


Escrevo tudo isso porque acredito que questionar não é negar o desejo. Não é impor moralidade. É abrir espaço para uma sexualidade mais consciente, mais inteira. Uma sexualidade em que poder e prazer possam caminhar juntos sem repetir hierarquias antigas. O sexo pode ser encontro, poesia, liberdade. Mas para isso precisamos desatar os nós do passado, reconhecer a sombra da opressão e reinventar o prazer a partir da autonomia, da escolha, do respeito.


Talvez o primeiro passo seja esse: perceber que até o que chamamos de desejo foi moldado por estruturas sociais que não escolhemos. E, a partir desse olhar, buscar um caminho em que o prazer não precise carregar a marca da violência para existir.





Tamara Nunes

Jornalismo/UCPel Poeta, Artesã,

Confeiteira Taróloga e Colunista

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