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Crônica – O Sabotador Que Mora Em Mim

[...] Costumo dizer que virei um sabotador profissional.

Crônica – O Sabotador Que Mora Em Mim
Imagem Internet/Unsplash

Existe um pequeno engenheiro do caos dentro de mim. Ele aparece sempre que meu coração começa a querer se aquecer, quando a vida ensaia um pouco de romance. Sabe aquele frio na barriga? Pois é: para ele, não é sinal de paixão, mas de um incêndio prestes a acontecer. E eu, como bom bombeiro desastrado, corro para rever as instalações do PPCI, antes de começar a apagar as fagulhas do que poderia ser uma grande fogueira.


Chamam isso de auto sabotagem no amor. Costumo dizer que virei um sabotador profissional. A gente o alimenta com medos, traumas antigos e conselhos mal digeridos. Pensa coisas como: “isso é bom demais para ser verdade”, “se está indo bem, logo vem a queda”, ou ainda a clássica “ninguém pode me amar desse jeito”. É, viro poeta do apocalipse sentimental. Na verdade estive certo algumas vezes. Às pessoas andam chatas. Também não me condene.


Meu modo sabotador me convence a não responder mensagens rápido demais, a ensaiar indiferença, a desconfiar de cada gesto de carinho. Me faz procurar sinais ocultos de traição em olhares que, talvez, só diziam “te quero”. Ele se diverte quando me vejo desistindo antes mesmo de começar, transformando possibilidades em cinzas.


No fundo, o eu sabotador não parece cruel. Ele só tem pavor do tombo, da rejeição, da exposição. Prefere sabotar do que arriscar a entrega. Mas o problema é que, nessa matemática torta, quase sempre saio perdendo: em nome de não sofrer, deixei de viver e virei uma Fênix cansada de renascer no turbilhão da dor.


E o mais curioso é que, depois de cada sabotagem bem-sucedida, vem aquele silêncio incômodo, como quem percebe que fechou a porta na cara da própria felicidade. Então me recolho, insatisfeito, até a próxima oportunidade aparecer para que eu possa tentar atrapalhar.


Talvez o segredo esteja em negociar com ele: “fica quieto, hoje eu vou arriscar”. Porque o amor, diferente da sabotagem, não se explica — se sente. E, convenhamos, sentir é sempre mais bonito do que se auto sabotar.





Jeff Soares

Músico 

Jornalista 

Apresentador do Aqui de Casa Podcast e MPB Café

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