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Tocando Agora:

Crônica — O Atraso do Choro

"Chorei Como nunca chorei na vida. Porque precisava desabafar."

Crônica — O Atraso do Choro
Arquivo Pessoal

Demorou.


Demorou tanto que eu quase achei que não viria. Passei os últimos anos engolindo seco, como quem atravessa um deserto de notícias e perde o paladar para a esperança. Vi amigos indo embora — uns para o outro lado da vida, outros para o outro lado da sanidade, vestindo camisetas verde e amarelas e o pior, certezas que nunca foram deles, mas que abraçaram como boias num mar de medo.


Eu também tive medo, medo de perder minha família, principalmente.


Naqueles dias, as ruas estavam vazias e as redes cheias. Gritos atravessavam telas, não portas. E enquanto eu tentava respirar — financeiramente, emocionalmente, fisicamente — alguém sorria em cadeia nacional, zombando da morte, da ciência e do luto de milhões. Perdi o emprego, perdi a fé em muitas coisas, e perdi, sobretudo, a ilusão de que o país era um lugar seguro para sonhar.


No entanto, enquanto acompanhei o julgamento, escrevendo sobre cada voto até a notícia da condenação, não pulei nem gritei. Fiz o que não esperava fazer: fiquei em silêncio. Só hoje, num domingo a tarde o choro veio, não era de alegria, tampouco de vingança — era de alívio. Como se um peso que eu carregava nos ossos tivesse finalmente entendido que não precisava mais estar ali.


Não recuperarei meus amigos. Não recuperarei os anos de medo, nem o emprego e os cabelos brancos. Mas recuperei algo pequeno e precioso: a certeza de que, por um instante, a justiça olhou para nós.


E só então entendi que o choro não era por mim, mas por todos aqueles que não tiveram a mesma oportunidade que eu, continuar vivo. Era por, enfim, poder recomeçar.






Jeff Soares

Músico

Jornalista 

Apresentador do Aqui de Casa Podcast e MPB Café


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