Eu Não Escolhi Ser Guerreira
[...] Virei terapeuta, professora, advogada, motorista, enfermeira.
Ser mãe já é pesado. Mas ser mãe atípica é carregar um fardo que ninguém vê. É viver lutando para garantir o mínimo ao meu filho, enquanto o mundo me olha como se fosse exagero, drama ou vitimismo. Quem fala isso nunca passou uma madrugada em claro esperando uma consulta que só vem meses depois. Nunca viu um filho precisar de acompanhamento urgente e ouvir que a fila do SUS é interminável. Nunca teve que escolher entre pagar a conta de luz ou a terapia particular que não cabe no orçamento, mas que não dá para deixar de lado.
O diagnóstico, que deveria ser uma porta para o cuidado, é só o começo de uma maratona sem linha de chegada. Para conseguir um papel assinado por um especialista, precisei bater em tantas portas que perdi a conta. E quando finalmente consegui, descobri que o papel não abre as portas sozinho. Ele serve mais para brigar, para provar, para tentar convencer escola, médico, juiz… como se o meu filho fosse um pedido que precisa ser justificado.
Na escola, a dor tem outro nome: exclusão. Ouvi de diretores que “não tinham estrutura”, de professores que “não estavam preparados”, de colegas de classe que chamaram meu filho de “problema”. E eu, como mãe, precisei engolir o choro e virar pedagoga sem formação, para ensinar em casa aquilo que a escola deveria garantir. É cruel demais ver seu filho ser tratado como peso quando tudo o que ele pede é oportunidade de aprender.

E não para por aí. Quando o assunto é transporte, cada trajeto vira uma batalha. Ônibus lotados, falta de acessibilidade, motoristas impacientes. Parece que o mundo se esqueceu de que crianças com necessidades diferentes também precisam se mover, também precisam chegar, também têm direito de ocupar a cidade.
A medicação é outro tormento. Muitas vezes não está disponível, ou custa o que eu não posso pagar. E o Estado, que deveria fornecer, exige papéis, processos, liminares. Enquanto isso, meu filho espera. E eu não espero nunca — eu corro atrás, me viro, me endivido, faço vaquinha, mas não deixo ele sem o que precisa. Só que isso cobra um preço, e não é só financeiro. É o cansaço que não acaba, é a exaustão que ninguém entende.
No meio de tudo isso, eu já deixei de ser só mãe. Virei terapeuta, professora, advogada, motorista, enfermeira. Virei uma mulher que passa mais tempo em filas e protocolos do que cuidando de si mesma. E ainda me chamam de guerreira. Eu não escolhi ser guerreira. Eu só quero ser mãe. Só quero que meu filho tenha o básico: educação, saúde, transporte, dignidade.
Mas parece que, nesse país, ser diferente é crime, e ser mãe de alguém diferente é condenação à luta eterna. Eu não peço favores. Eu não quero aplausos. Só quero que a vida do meu filho valha tanto quanto a de qualquer outra criança. E que eu possa, enfim, deixar de lutar todos os dias por aquilo que já deveria ser garantido.
Ninha Sousa

Colunista
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