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O Preconceito Contra as Roupas Sagradas das Religiões de Matriz Africana

[...] Mais do que tolerar, é preciso compreender.

O Preconceito Contra as Roupas Sagradas das Religiões de Matriz Africana
Imagem Internet

Quando alguém iniciado em uma religião de matriz africana aparece em público usando suas roupas rituais — geralmente brancas, rendadas, acompanhadas de colares e turbantes — a reação de muitas pessoas ainda é de estranhamento. Olhares tortos, cochichos, medo disfarçado em piada. Esse comportamento, que muitos consideram normal ou até inofensivo, na verdade revela algo muito mais profundo: o quanto o racismo religioso segue enraizado no nosso cotidiano.


É importante lembrar que as religiões de matriz africana, como candomblé e umbanda, foram trazidas para o Brasil pela população negra escravizada. Durante séculos, esses povos foram obrigados a esconder sua fé, perseguidos por autoridades e demonizados por discursos religiosos hegemônicos. As roupas sagradas — que hoje ainda despertam preconceito — já foram motivo de prisão, espancamento e até de destruição de terreiros. Ou seja: não estamos falando de mero incômodo estético, mas de um histórico de violência.


Enquanto isso, símbolos de outras religiões circulam livremente. Ninguém se incomoda com o véu da freira, com o colar de crucifixo, com o hábito do padre ou até mesmo com roupas que identificam grupos evangélicos. Pelo contrário, esses trajes costumam ser recebidos com respeito e até admiração. Por que, então, quando se trata de roupas africanas, a reação é o oposto? A resposta está na herança racista que insiste em associar a cultura negra ao perigo, ao “mal” ou ao “exótico”.




Mas é preciso desfazer esse mito. A indumentária de um iniciado não é fantasia, não é folclore, tampouco “bruxaria”. Cada peça tem um significado espiritual, representa respeito ao orixá, proteção e identidade religiosa. A roupa é parte da liturgia, assim como a batina é parte do catolicismo ou o talit é parte do judaísmo. Trata-se de símbolos que expressam fé e pertencimento.


Quando alguém olha com desconfiança para essas vestimentas, o que está rejeitando não é apenas o pano ou a cor branca: está rejeitando a história, a ancestralidade e a dignidade de um povo. Está repetindo, ainda que de forma inconsciente, a lógica colonial que tentou apagar culturas africanas no Brasil.

É aqui que entra a importância da educação. Precisamos aprender, desde cedo, que o Brasil é diverso em sua religiosidade, e que respeitar essa diversidade é um dever democrático. Ensinar às crianças, por exemplo, que aquele colar colorido (os fios de conta) é símbolo de fé, que o turbante não é moda, mas sagrado, e que a roupa branca representa pureza e devoção.


Mais do que tolerar, é preciso compreender. Afinal, aquilo que causa estranhamento para alguns é, para outros, fonte de paz, equilíbrio e identidade. Se conseguirmos enxergar a beleza na diferença, daremos um passo importante para um país verdadeiramente plural.


Portanto, da próxima vez que cruzar com alguém trajado em suas roupas de religião de matriz africana, em vez de olhar torto, que tal olhar com respeito? Ali está uma pessoa que carrega, no corpo e no coração, séculos de resistência e a força de uma fé que sobreviveu ao impossível. E só por isso já merece reverência, não desconfiança.





Ninha Sousa

Colunista 



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