Lobão, Errado! Mais Uma Vez!
[...] Essa conversa de chamar metaleiros de juvenis, retardados e etc… ou de dizer que o Blues é limitado é só um papo reducionista sem argumentos dos “roqueiros tiozões” que não conseguem ouvir nada fora da caixa....
Em mais uma de suas declarações provocativas, Lobão afirmou recentemente que o Heavy Metal seria uma “degeneração do Rock”, comparando o gênero à distância entre o sertanejo universitário e suas raízes. Lobão enfatiza que o Rock tem “alma negra”, vinda do Blues, algo ausente no Metal, que nasceria da “tosqueira” criada por “brancos sem swing”. A frase, típica do estilo do cantor, gerou debate — e merece um contraponto mais cuidadoso.
Só para lembrar, que se trata do mesmo Lobão, que acusou Chico, Caetano e Gilberto Gil de irrelevantes.
O Heavy Metal, longe de ser uma “degenerescência” do Rock, é uma das suas vertentes mais bem-sucedidas, complexas e inventivas. O gênero teria surgido entre o final da década de 60 e o início dos anos 70, justamente com o som pesado da santíssima trindade do Rock naquele momento, Black Sabbath, Led Zeppelin e Deep Purple. O peso, o riff, a distorção, a energia — tudo isso nasceu aqui.
Mas é a influência NEGRA que Lobão e tantos outros dizem não existir? Antes de começar a citar as influências NEGRAS do Heavy Metal, preciso relembrar aos desavisados que o Rock n’ Roll é PRETO e foi desapropriado culturalmente ao longo dos anos e só agora com o advento da internet é que se fala de “Sister Rosetha Tarpe” a real inventora do Rock n’ Roll.
Mas vamos lá, querem influências não é, ninguém pode falar nada quando se coloca Jimi Hendrix neste posto, sem o toque virtuoso e explosivo do guitarrista não existiriam bandas como Deep Purple. Pula para Muddy Waters, sem a influência do Pai do Blues, não existiriam bandas como Led Zeppelin e neste caso, a banda bebeu além da conta, precisando responder judicialmente a processos de plágio por parte de Willie Dixon, um dos maiores compositores e hitmakers do Blues. Phil Lynnot, o líder do Thin Lizzy, Tina Turner, B.B King, Albert Lee, Buddy Guy. Ainda posso citar Chuck Berry, Little Richard e a própria Rosetha Tarpe como influências, sem eles não existe Rock n’ Roll, muito menos, o Heavy Metal. Foi através deles que encontramos o “swing” nos Beatles e dos Stones.
Se o Rock nasceu do Blues, o Metal nasceu do Rock, amplificando sua intensidade, sua distorção e sua carga emocional. Reduzir o Metal à ausência de “swing” é ignorar que a música também evolui pela experimentação e pelo choque cultural, emocional e político. O Metal canaliza a emoção de maneira diferente do Blues ou do Rock Clássico: não pela sensualidade, mas pela catarse. É um gênero que transforma angústia, raiva e frustração em energia estética. Seu peso é expressão, não vazio.
Como vou dizer que há vazio em — Iron Maiden e Metallica entre muitas outras — que construíram discografias conceituais, com letras que exploram filosofia, história, política e mitologia. Obras como Seventh Son of a Seventh Son (1988) ou …And Justice for All (1988) são mais do que discos pesados: são narrativas complexas sobre injustiça, moral e destino. Já o Roots (1996), do Sepultura, banda que particularmente não sou grande fã, trouxe sonoridades indígenas brasileiras para o cenário mundial — algo que dificilmente poderia ser chamado de “degeneração”.
Além disso, o Metal contemporâneo é um campo fértil de evolução musical. Subgêneros como o progressivo, o sinfônico e o alternativo mostram a amplitude e a maturidade estética do estilo. Bandas como Tool, Opeth e Mastodon constroem obras que dialogam com o Jazz (outro gênero musical NEGRO), a música clássica e o rock experimental, desafiando o ouvinte tanto quanto qualquer outro gênero dito “culto”.
O Metal, ao contrário do que dizem, tem emoção, peso e identidade. Só que é uma emoção diferente — mais sombria, catártica, trágica. Enquanto o Blues canta a dor de um povo escravizado e dos amores impedidos, o Metal grita contra o caos do mundo, contra o sistema, contra os demônios internos. Tudo é amplificado. Transformando caos em arte.
Essa conversa de chamar metaleiros de juvenis, retardados e etc… ou de dizer que o Blues é limitado é só um papo reducionista sem argumentos dos “roqueiros tiozões” que não conseguem ouvir nada fora da caixa, que vivem a destilar julgamentos sem ouvir um disco inteiro ou melhor um gênero inteiro. O Metal pode até ter se tornado caricato, assim como há ‘bluesmens’ ruins, ‘roqueiros poser’ e sertanejos fabricados. Mas isso não invalida o gênero. Há tanto lirismo em Nothing Else Matters do Metallica quanto em um solo de B.B King — só muda a forma de expressar.
O Blues tem alma, o Rock tem corpo, e o Metal tem coração — batendo em duzentos BPM, talvez, mas ainda humano. E o peso da verdade está do lado das guitarras distorcidas.
Lobão, tu tá errado sim!
Jeff Soares

Músico
Jornalista
Apresentador do Aqui de Casa Podcast
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