Quando o Transporte Público Vira Um Castigo
[...] a mobilidade urbana no Brasil carrega a marca da desigualdade racial e social.
A vida de quem depende do transporte público no Brasil parece sempre um teste de resistência. Quem acorda antes do sol para enfrentar ônibus lotado, metrô quebrado e horas perdidas em congestionamento sabe que não estamos falando apenas de deslocamento, mas de um castigo diário imposto a quem tem menos.
E o mais cruel é perceber que esse peso não é distribuído de forma igual. Quanto mais pobre você é, mais longe do centro vai morar, mais passagens vai pagar e mais tempo da sua vida vai perder no trajeto. Em São Paulo, só 12,5% das pessoas que ganham até meio salário mínimo vivem perto de estações de metrô ou trem. Entre os mais ricos, esse número quase triplica. Mulheres negras, então, são as que mais sofrem: apenas 12,2% têm acesso próximo a esse tipo de infraestrutura. Ou seja, a mobilidade urbana no Brasil carrega a marca da desigualdade racial e social.
E vamos falar de dinheiro? Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares, o transporte já pesa mais no bolso do que a comida: 18,1% da renda vai para se locomover, enquanto a alimentação fica em 17,5%. Em um país em que 60% da população vive com até um salário mínimo, essa conta é absurda. Não estamos falando de conforto ou luxo, mas do direito básico de se mover pela cidade.
No fim do mês, o trabalhador de baixa renda sustenta sozinho um sistema falido. De cada R$ 59 bilhões arrecadados com tarifas, apenas R$ 6 bilhões vêm de subsídios. É isso mesmo: quase 90% de tudo sai direto do bolso de quem pega o ônibus. Enquanto isso, o carro particular, que congestiona as ruas, polui o ar e ocupa espaço desproporcional, recebe cada vez mais investimento público em infraestrutura. A lógica é simples: quem já tem mais, ganha mais.
O tempo perdido também é uma violência silenciosa. Um trabalhador de baixa renda passa em média 1h20 por dia em deslocamentos. Quando somamos todas as viagens, são mais de 2 horas. No fim do ano, são 32 dias inteiros — um mês da vida — jogados fora dentro de um ônibus ou no trânsito. Quem pode olhar para isso e dizer que temos uma cidade justa?
E não adianta jogar para os aplicativos de transporte uma falsa ideia de solução. Uma corrida de Uber pode ser sete vezes mais rápida e eficiente que o transporte público, mas só se você tiver dinheiro para pagar. Para quem vive com um salário mínimo, isso não é alternativa, é ficção.
Algumas experiências de tarifa zero já provaram que é possível fazer diferente. Em Recife, a demanda por ônibus cresceu 115% quando a passagem deixou de ser cobrada no segundo turno das eleições de 2022. O que isso mostra? Que as pessoas querem e precisam do transporte coletivo — o problema é que ele foi transformado em mercadoria cara e precária.
No fundo, essa é a questão central: mobilidade não deveria ser mercadoria. É direito. É dignidade. É acesso ao trabalho, à escola, à saúde, ao lazer. Mas, no Brasil, se locomover virou um privilégio. E enquanto governos seguirem tratando transporte como gasto e não como investimento social, quem depende dele vai continuar sendo penalizado com cansaço, com tempo roubado e com a humilhação de pagar caro por um serviço ruim.
O transporte público deveria aproximar pessoas das cidades. Hoje, faz o contrário: afasta quem tem menos das oportunidades. E isso não é acidente, é escolha política.
Ninha Sousa

Colunista
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