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Quando Os Heróis Se Pareciam Comigo

[...] Ver heróis negros nas telas foi( e ainda é) uma forma de resistência silenciosa, mas que grita sutilmente pela importância.

Quando Os Heróis Se Pareciam Comigo
Imagem Internet

Olá, caros leitores da Aqui de Casa Web Rádio!


Hoje quero falar sobre algo que parece simples, mas que carrega um poder imenso e teve influência na autoestima e na perspectiva de toda uma geração: a importância de ver pessoas negras como referência, principalmente na infância.


Quem cresceu nos anos 2000 sabe o impacto de ver o Super Choque soltando raios pelos fios do boné. Sentados à mesa, almoçando antes de ir pra escola… até bate uma nostalgia, né? Ver a Tempestade dominando o clima com a força do olhar, com autonomia e autenticidade, o Lanterna Verde protegendo o universo, ou o Ciborgue mostrando que humanidade e tecnologia podem coexistir num corpo só.


Esses personagens não eram apenas ficção. Eles representavam a possibilidade de existir com orgulho dos próprios traços, da própria pele, do próprio cabelo. Ver heróis negros nas telas foi( e ainda é) uma forma de resistência silenciosa, mas que grita sutilmente pela importância. Isso moldou toda uma geração que cresceu ali pelos anos 2000 e só ouvia que seus traços negroides deveriam ser minimizados e disfarçados. O famoso embranquecimento.


Durante muito tempo, ser criança negra significou crescer sem espelhos. Os brinquedos, os filmes, os desenhos… quase sempre mostravam protagonistas brancos, de cabelos lisos e olhos claros. Quando não se vê representado, o risco é aprender cedo demais a reprimir o que te faz único.


Por isso, quando o Super Choque surgiu, não foi só um novo herói , foi uma virada de chave. Ele era inteligente, engraçado, criativo e vinha da periferia. Falava como a gente, vestia como a gente e enfrentava desafios reais. Para muitas crianças negras, foi a primeira vez que o herói da história tinha a mesma cor que o espelho.




E essa representatividade não é apenas simbólica , ela é estrutural. De acordo com o Censo de 2022 do IBGE, 10,2% da população brasileira se declarou preta e 45,3% se declarou parda. Ou seja, mais de 55% dos brasileiros se identificam como pessoas negras ou afrodescendentes. Somos maioria, mas por muito tempo fomos retratados como minoria, principalmente nas narrativas que moldam o imaginário coletivo.


Imagina, em um país onde mais da metade da população é preta/parda, as crianças crescerem vendo somente pessoas oposto delas ganhando protagonismo.


Querendo ou não, até de forma inconsciente, isso mexe com a autoestima dessa criança, que vai crescer, muita das vezes, um adulto cheio de inseguranças e complexos, seja por influência do cotidiano, do círculo social ou da cor da pele.


“Autoestima também vem de casa, quando se cresce em um lar com pessoas conscientes, elas entregam essa autoestima para as crianças incentivando elas a gostarem de si mesmas como elas são, enaltecendo seus cabelos, traços. Mas como julgar as pessoas por elas não conseguirem dar uma coisa que muita das vezes nem elas tiveram? Os avós desses pais passaram pelo processo de embranquecimento, os pais desses pais também, esse assunto é de fato delicado. É um processo longo, lento e gradativo, mas que mesmo sendo tudo isso, por menor que pareça ser o passo em direção a autoestima das futuras gerações, ainda assim é um passo.”


A gente sabe o quanto a infância é o solo que se pisa a vida toda. Muito do que acontece nela nos molda como adultos, seja de forma positiva ou negativa.


Ter heróis negros é reivindicar espaço na imaginação das próximas gerações. É ensinar que ser negro não é ser coadjuvante, nem exceção: é ser parte essencial da história. É mostrar que nossos cabelos crespos não precisam ser domados, que nossos traços não precisam ser “corrigidos” e que nossa pele carrega poder, beleza e memória.


Esses personagens ajudaram a construir autoestima e pertencimento para uma geração que aprendeu, aos poucos, que o extraordinário também tem cor.




Porque, quando uma criança negra se vê como protagonista, ela entende que pode ser o que quiser, cientista, artista, herói, ou tudo isso junto. Hoje, que essas crianças cresceram e seguem abrindo caminhos, fica a certeza: representatividade é sobre liberdade. E cada vez que um novo herói negro surge na tela, nasce também uma nova possibilidade de futuro, mais justo, mais plural, mais bonito.


Até a próxima, com afeto e resistência.

Um beijo.





Tamara

Colunista 

Estudante de Jornalismo

Confeiteira

Taróloga

Artesã

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